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Homem e mulher Ele os criou
Caro Leitor, veja só o que apareceu em www.zenit.org. O plano de Deus, simples, transparente, límpido, belo... Eis o único caminho para a verdadeira e duradoura realização da humanidade...
Representantes judeus ortodoxos e católicos e membros da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, da União Ortodoxa e do Conselho Rabínico da América emitiram uma declaração conjunta sobre o matrimônio, intitulada «Criados à sua Divina Imagem».
A declaração está assinada pelo rabino Fabian Schonfeld, da Sinagoga Jovem Israel, Kew Gardens Hills, Nova York, e pelo bispo William Murphy, de Rockville Centre, e membros da Consulta.
Nela, reconhecem que muitas comunidades dos Estados Unidos estão agora empenhadas em um novo diálogo sobre o significado da palavra «casamento», interrogando-se «se deveria descrever só a união entre um homem e uma mulher».
«Como líderes de nossas respectivas confissões – indicam os assinantes da declaração –, nós como rabinos ortodoxos, líderes comunais e representantes dos bispos católicos dos Estados Unidos, desejamos afirmar nosso compromisso compartilhado com o mandamento de Deus, o Todo-Poderoso, que criou homem e mulher à sua divina imagem (Gn 1,26-27), de maneira que pudessem compartilhar, como homem e mulher, como companheiros e iguais (Gn. 2,21-24), a procriação dos filhos (Gen. 1,28) e a construção da sociedade».
Os representantes judeus e católicos constatam que «agora enfrentamos uma demanda de que as uniões do mesmo sexo sejam classificadas como matrimônio».
Afirmam que quem defende esta posição argumenta qu e «atuar de outra maneira é assumir uma forma de discriminação contra os homossexuais».
«Nós reconhecemos – dizem a este respeito – que todas as pessoas compartilham a igualdade na dignidade da natureza humana e têm direito a que se proteja essa dignidade humana, mas isso não justifica a criação de uma nova definição para um termo cujo significado tradicional é de importância crítica para manter um interesse societário fundamental.»
Os assinantes da declaração afirmam que «o desígnio de Deus para a continuação da vida humana, como se vê na ordem natural, assim como na Bíblia (Gn 1-3), claramente trata da união de homem e mulher, primeiro como esposo e esposa, e depois como pais».
Neste sentido, sublinham que «um fim exclusivo do matrimônio, que é a reprodução e a criação de famílias, acontece fora das uniões do mesmo sexo, que não podem participar da mesma maneira nesta função essencial».
«Ainda que outros possam exigir o direito de estabelecer relações privadas entre pessoas do mesmo gênero, que simulam o matrimônio, a classificação legal de tais relações como matrimônio dilui a condição especial de matrimônio entre um homem e uma mulher», indicam.
«Dado que o futuro de cada sociedade – acrescentam – depende de sua capacidade para reproduzir-se segundo sua ordem natural e para ter seus jovens em um ambiente estável, é dever do Estado proteger o lugar tradicional do matrimônio e a família pelo bem da sociedade.»
«Ainda que outros tenham a liberdade de discordar de nós – sublinham –, esperamos que inclusive aqueles que estão fora de nossas comuns tradições religiosas reconheçam que falamos desde a verdade da própria natureza humana, que é coerente tanto com a razão como com a vida moral.»
Os assinantes concluem sua declaração fazendo um convite às suas «comunidades locais de fé para que considerem cuidadosamente as tradições mantidas por tanto tempo de judeus e cristãos sobre a natureza do matrimônio construído sobre o compromisso de um homem e uma mulher desejosos de estabelecer uma família para contribuir com o bem da humanidade».

Escrito por Pe. Henrique às 23h23
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A Palavra de Deus para o XXIII Domingo Comum - A
Leitura da Profecia de Ezequiel (Ez 33,7-9)
Assim diz o Senhor: 7“Quanto a ti, filho do homem, eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel. Logo que ouvires alguma palavra de minha boca, tu os deves advertir em meu nome.
8Se eu disser ao ímpio que ele vai morrer, e tu não lhe falares, advertindo-o a respeito de sua conduta, o ímpio vai morrer por própria culpa, mas eu te pedirei contas da sua morte.
9Mas, se advertires o ímpio a respeito de sua conduta, para que se arrependa, e ele não se arrepender, o ímpio morrerá por própria culpa, porém, tu salvarás a tua vida”.
Salmo responsorial (Sl 94)
Não fecheis o coração, ouvi, hoje, a voz de Deus!
Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos o Rochedo que nos salva!
Ao seu encontro caminhemos com louvores,
e com cantos de alegria o celebremos!
Vinde, adoremos e prostremo-nos por terra,
e ajoelhemos ante o Deus que nos criou!
Porque ele é o nosso Deus, nosso Pastor,
e nós somos o seu povo e seu rebanho,
as ovelhas que conduz com sua mão.
Oxalá ouvísseis hoje a sua voz:
“Não fecheis os corações como em Meriba,
como em Massa, no deserto, aquele dia,
em que outrora vossos pais me provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras”.
Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 13,8-10)
Irmãos: 8não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei.
9De fato, os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “não matarás”, “não roubarás”, “não cobiçarás”, e qualquer outro mandamento, se resumem neste: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
10O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei.
Aleluia, aleluia, aleluia! (2Cor 5,19)
O Senhor reconciliou o mundo
em Cristo, confiando-nos sua Palavra,
a Palavra da reconciliação, a Palavra
que hoje, aqui, nos salva!
Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus (Mt 18,15-20)
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos:
15“Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. 16Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas.
17Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como um pagão ou um pecador público.
18Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
19De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. 20Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”.
Escrito por Pe. Henrique às 16h49
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Estudo bíblico-catequético para o XXIII Domingo Comum - A
1. Tome a primeira leitura, da profecia de Ezequiel:
=> Ezequiel viveu no século VI aC. Tinha cerca de 20 anos quando foi levado para o Exílio em Babilônia com o Rei Joaquin e mais 10.000 homens, a elite do País (funcionários públicos, soldados e artesãos) na primeira leva de exilados em 597aC.
=> Ezequiel pertencia à tribo sacerdotal. Com cerca de 30 anos o Senhor dirigiu-lhe a palavra para que profetizasse, prevenindo que o resto do povo, que havia ficado na Terra Santa com o rei Sedecias também seria exilado se não se convertesse.
=> A vocação do profeta começou com uma visão impressionante da glória e da santidade de Deus às margens do Rio Cobar, na Babilônia. Ezequiel, por um lado vê a santidade de Deus e, por outro, o pecado do seu povo. Assim, previne fortemente que é necessário converter-se ao Deus santo, caso contrário, todo Israel irá para o Exílio.
=> Quando a tragédia aconteceu e, em 587aC, o resto do povo foi exilado, Jerusalém foi destruída e o Templo queimado, o profeta começou uma nova etapa na sua pregação: agora consolava Israel, prometendo que Deus o faria voltar um dia. Assim, sua pregação parece muito com a de Jeremias, cerca de 10 anos mais velho que ele.
=> Ezequiel se compara a uma sentinela, um vigia que deve gritar alertando para o perigo. Um de seus temas mais característicos é o da responsabilidade individual: cada um é responsável por suas ações diante de Deus. A leitura de hoje toca um pouco estes dois temas.
=> O livro de Ezequiel pertence em muitos pontos à literatura chamada apocalíptica, que usa imagens impressionantes e cheia de símbolos para exprimir a mensagem de Deus. Por isso mesmo recorda muito o estilo do Apocalipse do Novo Testamento.
=> Não é um livro muito fácil de ler; mas no nosso mundo tão marcado pelo materialismo e pela medida do homem, é muito importante aprender com este profeta a visão que ele tem de Deus e, assim, tomar consciência da necessidade de ver o pecado com os olhos de Deus e da urgência de conversão, antes que tenhamos de aprender com o juízo de Deus, como Israel.
=> Concretamente, a primeira leitura de hoje nos recorda a responsabilidade que temos de corrigir o irmão. Certamente uma correção cheia de respeito, amor e misericórdia. Mas, somos responsáveis pelos irmãos. Não deveríamos fazer como Caim. Leia Gn 4,9.
=> Há aí também uma tremenda lição: não ouvir a palavra do Senhor, sua voz que nos previne e corrige, leva-nos à morte da alma, à morte eterna. Pensando nisso, reze o salmo responsorial.
2. Veja agora a segunda leitura:
=> São Paulo apresenta-nos o maior valor e a maior riqueza da vida cristã. Qual é?
=> Qual o resumo da Lei de Moisés?
=> A Lei de Moisés manda amar o próximo como a si mesmo; e já é muito! E Jesus, o que manda? Qual o seu novo mandamento? Leia Jo 13,34-35. Somente pode amar assim quem primeiro experimentou o amor de Jesus: somente quando experimentamos que somos infinitamente amados podemos amar quase que infinitamente...
3. Agora, o Evangelho:
=> Note que o texto de hoje faz parte do capítulo 18 de São Mateus. É o capítulo no qual o Senhor Jesus fala sobre a vida da sua Igreja.
=> Tome sua Bíblia e leia todo o capítulo 18. Faça uma relação dos temas que aí são tratados.
=> Confira com esta lista: (1) Quem é o maior na Igreja? (2) Sempre haverá escândalos na Igreja. Que fazer quando os fracos na fé (= os pequeninos) se escandalizarem e se afastarem? (3) Como proceder com o irmão que erra e peca contra nós? (4) Que fazer com aquele que escandaliza e não quer se corrigir? (5) Qual o poder da oração da Igreja? (6) Até quando e até onde se deve exercer o perdão na Igreja, mesmo para com o irmão que, punido, se arrepender sinceramente?
=> Agora tome o texto do Evangelho de hoje. Leia com atenção e observe:
=> Na Igreja deve-se corrigir os que erram e, nos casos mais graves são os responsáveis pela Comunidade (o sacerdote, o Bispo e até o Papa, nos casos extremos) que devem fazer o discernimento e o julgamento: “Se ele não der ouvido, dize-o à Igreja”.
=> Quando alguém provoca grave escândalo na Comunidade (por comportamento ou por erro de doutrina) e não se corrige, então pode e deve ser separado da Igreja (= excomungado): “Se nem mesmo à Igreja ele quiser ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público”. Observe bem: Jesus é Bom, mas não é bonzinho; é amor e misericórdia, mas não aceita nossa teimosia e nossa malandragem!
=> Leia o v. 18! O poder de ligar e desligar que Jesus deu a Pedro somente (cf. Mt 16,18-19), deu também a toda a Igreja representada pelos Bispos, sucessores dos Apóstolos. Assim, Pedro sozinho (o Papa sozinho) ou Pedro com os Doze (O Papa com os Bispos reunidos em Concílio) têm plena autoridade sobre toda a Igreja!
=> Leia com atenção os vv. 19-20. Quando Jesus fala aqui de dois ou três reunidos, está pensando na Comunidade, sua Comunidade, chamada Igreja, aquela que se reúne em comunhão com o Sucessor de Pedro. A expressão “dois ou três” é para fazer contraposição ao isolamento do que pecou e se afastou da Igreja. Assim, o que Jesus quer dizer é: Tudo quanto decidirdes como Igreja (= dois ou três reunidos, não cada um isolado), eu estarei convosco: o que ligardes, eu ligo; o que desligardes, eu desligo. Não se pode seguir a Cristo isolado ou fundando sua comunidadezinha: a Comunidade de Cristo é una, santa, católica e apostólica, reunida em torno do Sucessor de Pedro e dos Sucessores dos Doze!
=> Eis o que diz o Catecismo da Igreja: A Igreja é una por sua fonte: "Deste mistério, o modelo supremo e o princípio é a unidade de um só Deus na Trindade de Pessoas, Pai e Filho no Espírito Santo". A Igreja é una por seu Fundador: "Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, por sua cruz reconciliou todos os homens com Deus, restabelecendo a união de todos em um só Povo, em um só Corpo". A Igreja é una por sua "alma": "O Espírito Santo que habita nos crentes, que plenifica e rege toda a Igreja, realiza esta admirável comunhão dos fiéis e os une tão intimamente em Cristo, que ele é o princípio de Unidade da Igreja". Portanto, é da própria essência da Igreja ser una. (n. 813).
Escrito por Pe. Henrique às 16h48
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O amor que une Amado e amada
Dos Sermões de São Bernardo (1091-1153), abade e doutor da Igreja
Dentre todos os movimentos da alma, de entre todos os sentimentos e os afetos da alma, o amor é o único que permite à criatura corresponder ao seu Criador, senão de igual para igual, pelo menos de semelhante para semelhante.
O amor do Esposo, ou antes, o Esposo que é amor, apenas pede amor recíproco e fidelidade. Que seja, pois, permitido à esposa corresponder a esse amor. E como podia ela não amar, sendo como é esposa, e esposa do Amor? Como poderia o Amor não ser amado? Ela tem, pois, razões para renunciar a todos os outros afetos, para se entregar a um único amor, uma vez que lhe foi dado corresponder ao Amor com um amor recíproco.
Mas, mesmo que ela se fundisse por completo no amor, o que seria isso em comparação com a torrente de amor eterno que brota da própria fonte? O fluxo não corre com a mesma abundância daquele que ama e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, da criatura e do Criador; não existe a mesma abundância na fonte e naquele que vem beber à fonte.
Quer dizer então que os suspiros da esposa, o seu fervor amoroso, a sua espera cheia de confiança, que tudo isso é em vão, porque ela não pode rivalizar na corrida com um campeão (Sl 18,6), não pode querer ser tão doce como o mel, terna como o cordeiro, branca como o lírio, luminosa como sol, e tão amorosa como Aquele que é o próprio Amor? Não. Porque, se é certo que a criatura, na medida em que é inferior ao Criador, ama menos do que Ele, também é certo que pode amar com todo o seu ser; e, onde há totalidade, nada falta.
É esse o amor puro e desinteressado, o amor mais delicado, pacífico e sincero, mútuo, íntimo, forte, que reúne os dois amantes, não numa só carne, mas num único espírito, de modo que eles se tornam um só, nas palavras de São Paulo: «Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só espírito» (1Cor 6,17).
Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 13h36
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Um Papa, mártir de Cristo
Caro Leitor, veja só que belo testemunho, o do pontificado de Pio VII, que teve a vida amargurada por Napoleão Bonaparte. Esta bela matéria apareceu em www.30giorni.it. Vale a pena lê-la... e refletir sobre os mitos de liberdades e direitos individuais, tão propagados pela Revolução Francesa, que perseguiu a Igreja e muitos cristãos...

O papa Bento XVI, na visita a Savona e Gênova de 17-18 de maio passados, lembrou o longo exílio a que o papa Pio VII foi constrangido, na cidade de Savona, de meados de 1809 a meados de 1812, quando, por ordem de Napoleão, foi transferido para Fontainebleau, novo local do degredo, de onde só voltaria a Roma dois anos depois.
O exílio qüinqüenal de Pio VII (e poderíamos estender esta afirmação a todo o seu pontificado) paga, não apenas do ponto de vista da divulgação, um déficit de conhecimento entre os próprios católicos, motivado pela atenção primordial que se reservava, para o bem ou para o mal, à figura de Napoleão.
Não será inútil, portanto, lembrar brevemente alguns aspectos desse degredo. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que Pio VII (eleito em Veneza depois de um longo conclave, em 1800) foi o papa das concordatas com a República Francesa e a República Cisalpina entre 1801 e 1803, além de ter sido o pontífice que consagrou Napoleão imperador, em Paris, em 1804. Tudo isso criou a expectativa de tê-lo como aliado. Porém, diante das repetidas demonstrações de independência dadas por Pio VII nos anos seguintes, Roma foi ocupada pelos franceses já no início de 1808, e, em julho do ano seguinte, o próprio Papa foi detido e levado a Savona depois de uma viagem de seis semanas penosa e tortuosa, uma vez que só durante o caminho Napoleão foi informado da captura realizada por seus veneráveis generais. Já no início dessa longa viagem aparecia aquela “doce tristeza e o natural sorriso” de Pio VII, “que caracterizará sua atitude habitual durante o degredo” (nas palavras de Jean Leflon, um dos mais importantes estudiosos do pontificado de Pio VII e autor do volume XX da História da Igreja de A. Fliche e V. Martin). Mas deu-se também que, no trajeto tragicômico (o próprio Papa usou termos como esse) percorrido entre a Itália e a França, Pio VII tenha sido acompanhado e consolado por “demonstrações de respeito e simpatia tributadas a ele por populações silenciosas e consternadas”. O papa Bento XVI lembrou particularmente “o amor e a coragem com que os cidadãos de Savona apoiaram o Papa na sua residência forçada”. De fato, o conflito de jurisdição e o conseqüente exílio deram-se paralelamente a um intenso ministério pastoral do Papa, tanto mais profícuo quanto mais distante de qualquer preocupação em obter sucesso (dadas as dificuldades objetivas de sua condição). Até o ponto que suscitou a graça das conversões nesse período, como testemunha uma carta recentemente republicada de um soldado piemontês que fazia parte da guarda do Papa. A transferência para Fontainebleau, além de visar o enfraquecimento de sua resistência (o Papa esteve à beira da morte durante o percurso), parece ter sido motivada também pelo desejo de impedir essa proximidade do Papa com os fiéis, que crescera paradoxalmente ao longo dos anos em Savona.
Mas o que mais impressiona é que o próprio perseguidor, digamos assim, não ficava de fora da acolhida do pastor: mais de uma vez testemunhou-se que o Papa chamava a Napoleão “um querido filho”, “um pouco teimoso, mas sempre um filho”. Pelo bem da Igreja, o Papa queria acatar as pressões que vinham do imperador. E como, ao solicitar sua própria libertação, insistira na recusa em conceder o mandato canônico aos bispos escolhidos por Napoleão, com base na concordata, Pio VII, pelos menos em três ocasiões, nos anos que passou em Savona e, depois, em Fontainebleau, esteve a ponto de ceder e conceder esse mandato, para que os fiéis de várias dioceses, inclusive a de Paris, não ficassem sem seus legítimos pastores, o que, afinal, significava ficar sem os sacramentos.
Nesse quadro de “firmeza serena”, como disse Bento XVI, ao falar do degredo de Pio VII, não falta, porém, um momento de trevas, uma espécie de traição radical cometida justamente por alguns daqueles que compunham o círculo mais próximo do Papa, como o médico que lhe fora designado, o próprio bispo de Savona (talvez um dos motivos da escolha dessa cidade) e outros bispos, que, cada um a seu tempo, procuraram, com engodos, tirar proveito dos momentos de fraqueza do Papa.
Depois das primeiras derrotas severas de Napoleão na Rússia e na Saxônia, Pio VII, no início de 1814, pôde voltar para Roma, fazendo uma parada na querida Savona (que não seria a última, já que, durante os “cem dias” que precederam Waterloo, Pio VII voltou mais uma vez a visitar aquele santuário de Nossa Senhora da Misericórdia que foi sua primeira meta tão logo chegou à cidade como prisioneiro, em 1809). De volta a Roma, o Papa não participará da damnatio memoriae de seu antigo perseguidor; ao contrário, no momento do degredo definitivo do imperador em Santa Helena, Pio VII procurará aliviar seus sofrimentos, intercedendo, junto aos aliados, zelosos até demais, pelo “pobre exilado”.
Assim, tal como no momento da captura de Pio VII, segundo as Mémoires do cardeal Pacca, “nenhum protesto se ouviu, nem uma única voz protetora soou dos tronos católicos em favor desse ilustre encarcerado”, o mesmo se deu no momento do exílio de Napoleão em Santa Helena, salvo, justamente, a misericórdia daquele que fora seu prisioneiro. A mãe de Bonaparte o reconheceria numa carta de 27 de maio de 1818 ao secretário de Estado: “O único consolo que me é concedido é saber que o Santíssimo Padre esquece o passado para lembrar apenas do afeto que demonstra por todos os meus. Nós só encontramos apoio e asilo no governo pontifício, e nossa gratidão é tão grande quanto o benefício que recebemos”.
“Bela Imortal! Benéfica
Fé habituada aos triunfos!
Escreve mais este, alegra-te;
Pois altura mais soberba
À desonra do Gólgota
Jamais se dobrou.
Tu, das esgotadas cinzas,
Dispersas toda palavra adversa:
O Deus que derruba e dá forças,
Que aflige e consola,
No deserto colchão
Ao lado dele repousou”.
Quem sabe Manzoni, quando escrevia de um golpe essa famosa ode, após a morte de Napoleão, também não estivesse tocado pelo exemplo de Pio VII?
+++++
Eis ainda um trecho de uma carta de um dos soldados que vigiavam o Papa na prisão; é o testemunho de um soldado inimigo da Igreja e dos padres...
Trata-se de um soldado piemontês que fazia parte da guarda de Pio VII no exílio em Savona. A carta, conservada no Arquivo Episcopal de Alba, foi publicada nas Atas do Congresso Histórico Internacional (Cesena-Veneza, 15-19 de setembro de 2000).
“Savona, 12 de janeiro de 1810
[...] Eu, que era inimigo dos padres, preciso confessar a verdade, pois sou obrigado. [...] Pelo tempo que o Papa esteve preso neste palácio episcopal, e vigiado não apenas por nós, mas também dentro de casa, posso lhes dizer que esse santo homem é um modelo de humanidade e moderação, e de todas as virtudes sociais, que apaixona a todos, que abranda os espíritos mais fortes e torna amigos até mesmo os mais obstinados inimigos. O Papa está quase sempre em oração, muitas vezes prostrado com o rosto por terra, e ocupa o tempo que aqui passa escrevendo ou concedendo audiências na antecâmara lotada, e dando sua bênção ao imenso povo que vem de todas as partes, da França, da Suíça e do Piemonte, de Savóia e do Genovesado. Como não havia mais quartos para dormir nesta cidade, montaram barracas na praça do episcopado, onde ficam noite e dia, a despeito dos rigores da estação, para poder vê-lo e receber sua bênção. É realmente enternecedor ouvir os gritos de um povo imenso de todos os sexos e idades, e até dos protestantes, que, ajoelhados no chão, gritam: ‘Santo Padre, abençoe nossas almas, nossos filhos; sabemos que o senhor é perseguido injustamente, mas nosso Senhor Jesus Cristo também foi perseguido injustamente; ele o salvará e serão confundidos os nossos inimigos’”.

Pio VII levado prisioneiro.
Escrito por Pe. Henrique às 21h18
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Mártires de Cristo hoje
Caro Internauta, veja só o que tem acontecido em países nos quais os cristãos são minoria... Na Índia, os hindus nos massacram; no Paquistão e em outros países islâmicos, os muçulmanos nos oprimem... E o glorioso Ocidente, pagão e anti-cristão, nada diz, em nada protesta... E nós, cristãos ocidentais, tão frouxos, tão acomodados... E irmãos nossos dão a vida e sofrem vexames por causa do santo nome de Jesus. Felizes deles; ai de nós! A matéria a seguir é de www.acidigital.com.

O Secretário da Comissão Bíblica Católica de Paquistão e Pároco em Lahore, Pe. Emmanuel Asi, explicou que os cristãos nesse país vivem "atemorizados e em constante ameaça", pois são considerados o estrato social mais baixo, são perseguidos, explorados laboralmente e discriminados; em uma nação com mais de 95 por cento de muçulmanos. Apesar a todas as dificuldades, explica o sacerdote, ainda vivem a esperança.
O Pe. Asi se referiu a esta alarmante situação em comunicação com a organização católica internacional Ajuda à Igreja Necessitada (AIN). Pôs como exemplo o caso de uma menina "cristã de treze anos de idade foi seqüestrada e violada por um muçulmano. O Pároco assegura que fatos como este se repetem continuamente".
"Para evitar o castigo, os homens afirmam que a mulher violada é muçulmana, casam-se com ela e, ao pouco tempo, repudiam-na. Ninguém pode fazer nada, porque os 'esposos' pressionam e ameaçam de morte às vítimas até o ponto das fazer declarar diante do juiz e em presença de seus próprios pais que se converteram ao Islã. Desta forma, um homem muçulmano pode seqüestrar e violar a qualquer mulher sem temor a ser condenado", explica o sacerdote ao AIN.
O presbítero disse também que laboralmente os cristãos são explorados pelos latifundiários quem os submete a “uma forma de escravidão”. Não percebem um salário mensal, e no melhor dos casos se lhes dá uma pequena retribuição depois da colheita. Do mesmo modo, "os cristãos costumam ser objeto de uma forte discriminação na hora de procurar trabalho e aceder a colégios e universidades, porque um nome cristão basta para rechaçar uma solicitude. Também perante a lei, os cristãos são cidadãos de segunda classe".E contudo, vivem a esperança. Entretanto, explica o Pe. Emmanuel Asi assegura que os paquistaneses que professam a fé em Cristo estão “orgulhosos e contentes de ser cristãos” pois entendem sua fé como “um dom e uma grande bênção”, embora sua vida esteja marcada pela dor, o medo e a frustração”.
“Dos primeiros cristãos sabemos que a perseguição e a opressão foram decisivas na hora de difundir e aprofundar na fé, e essa é também nossa experiência no Paquistão”, precisa. Além disso, destaca como positivo o efeito do testemunho dos cristãos nos muçulmanos, pois estes percebem que “os cristãos são diferentes”. As mulheres, por exemplo, sentem-se atraidas pela “liberdade e alegria” que irradiam as cristãs, porque “podem ir junto aos homens à igreja" e "podem cantar no coro”.
O Pe. Asi diz que a presença das religiosas representa um “extraordinário testemunho” e que muitas meninas muçulmanas gostariam de ir a um colégio católico. A Igreja em Paquistão promove a formação da mulher e organiza numerosos grupos femininos que, por sua vez, convidam a mulheres muçulmanas. O sacerdote abriga a esperança de que sejam precisamente as mulheres que induzam a uma mudança na sociedade.

Categoria: Análises
Escrito por Pe. Henrique às 19h24
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Bento XVI: Paulo, encontrado por Cristo
Mais uma Catequese de Bento XVI neste Ano Paulino. É a terceira da série.

A catequese de hoje será dedicada à experiência que São Paulo teve no caminho de Damasco e, portanto, à sua comumente chamada conversão. Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros 30 anos do século I, e após um período no qual havia perseguido a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo. Sobre ele se escreveu muito e naturalmente desde diversos pontos de vista. O certo é que lá aconteceu um giro, uma mudança total de perspectiva. A partir de então, inesperadamente, ele começou a considerar «perda» e «lixo» tudo aquilo que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser de sua existência (Filipenses 3, 7-8). O que havia acontecido?
Temos a respeito disso dois tipos de fontes. O primeiro tipo, o mais conhecido, são os relatos devidos à escrita de Lucas, que em três ocasiões narra o acontecimento nos Atos dos Apóstolos (Cf. 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23). O leitor mediano terá talvez a tentação de deter-se muito em alguns detalhes, como a luz do céu, a queda na terra, a voz que chama, a nova condição de cegueira, a cura pela queda de uma espécie de escamas dos olhos e o jejum. Mas todos estes detalhes fazem referência ao coração do acontecimento: Cristo ressuscitado se apresenta como uma luz esplêndida e se dirige a Saulo, transforma seu pensamento e sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado o deixa cego: apresenta-se também exteriormente o que era a realidade interior, sua cegueira com relação à verdade, à luz que é Cristo. E depois seu definitivo «sim» a Cristo no batismo reabre de novo seus olhos, faz-lhe ver realmente.
Na Igreja antiga, o batismo era chamado também de «iluminação», porque este sacramento dá a luz, faz ver realmente. Tudo o que se indica teologicamente, em Paulo se realizou também fisicamente: uma vez curado de sua cegueira interior, ele enxerga bem. São Paulo, portanto, não foi transformado por um pensamento, mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá duvidar, tão forte havia sido a evidência do evento, deste encontro. Este mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido se pode e se deve falar de uma conversão. Este encontro é o centro do relato de São Lucas, o qual é muito possível que utilizasse um relato nascido provavelmente na comunidade de Damasco, pelo colorido local dado pela presença de Ananias e pelos nomes, tanto da rua como do proprietário da casa na qual Paulo se hospedou (cf. Atos 9, 11).
O segundo tipo de fontes sobre a conversão está constituído pelas próprias Cartas de São Paulo. Nunca falou com detalhe deste acontecimento, penso que podia supor que todos conheciam o essencial desta história sua, todos sabiam que de perseguidor havia sido transformado em apóstolo fervoroso de Cristo. E isso não havia acontecido após uma reflexão própria, mas depois de um acontecimento forte, de um encontro com o Ressuscitado. Inclusive sem falar dos detalhes, ele assinala em muitas ocasiões este fato importantíssimo, ou seja, que ele também é testemunha da ressurreição de Jesus, da qual recebeu a relevância diretamente do próprio Jesus, junto com a missão do apóstolo. O texto mais claro sobre este aspecto se encontra em seu relato sobre o qual constitui o centro da história da salvação: a morte e a ressurreição de Jesus e as aparições às testemunhas (cf. 1 Coríntios 15). Com palavras de antiqüíssima tradição, que ele também recebeu da Igreja de Jerusalém, diz que Jesus morreu crucificado, foi sepultado, e após sua ressurreição apareceu primeiro a Cefas, ou seja, a Pedro, depois aos Doze, depois a 500 irmãos que em grande parte ainda viviam naquele tempo, depois a Tiago, e depois a todos os Apóstolos. E a este relato recebido da tradição acrescenta: «E por último apareceu também a mim» (1 Coríntios 15, 8). Assim dá a entender que este é o fundamento de seu apostolado e de sua nova vida. Há também outros textos nos quais aparece o mesmo: «Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado» (cf. Romanos 1, 5); e em outra parte: «Acaso não vi Jesus, Senhor nosso?» (1 Coríntios 9, 1), palavras com as quais alude a algo que todos sabem. E finalmente o texto mais difundido é lido em Gálatas1, 15-17: «Mas, quando Aquele que me separou desde o seio de minha mãe e me chamou por sua graça, teve por bem revelar em mim o seu Filho, para que o anunciasse entre os gentios, imediatamente, sem pedir conselho nem à carne nem ao sangue, sem subir a Jerusalém onde estiveram os apóstolos anteriores a mim, fui para a Arábia, de onde novamente voltei a Damasco». Nesta «auto-apologia» sublinha decididamente que também ele é verdadeira testemunha do Ressuscitado, que tem uma missão recebida diretamente do Ressuscitado.
Podemos ver que as duas fontes, os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo, convergem em um ponto fundamental: o Ressuscitado falou com Paulo, chamou-o ao apostolado, fez dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com a tarefa específica de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo greco-romano. E ao mesmo tempo Paulo aprendeu que, apesar de sua imediata relação com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, deve ser batizado, deve viver em sintonia com os demais apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: «Tanto eles como eu, isto é o que pregamos; isto é o que haveis crido» (15, 11). Só existe um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.
Como se vê em todas estas passagens, Paulo não interpreta nunca este momento como um fato de conversão. Por quê? Há muitas hipóteses, mas o motivo é muito evidente. Este giro de sua vida, esta transformação de todo seu ser não foi fruto de um processo psicológico, de um amadurecimento ou evolução intelectual ou moral, mas veio de fora: não foi o fruto de seu pensamento, mas do encontro com Jesus Cristo. Neste sentido, não foi simplesmente uma conversão, um amadurecimento de seu «eu», mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma existência sua e nasceu outra nova com Cristo Ressuscitado. De nenhuma outra forma se pode explicar esta renovação de Paulo. Todas as análises psicológicas não podem esclarecer nem resolver o problema. Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para entender o que aconteceu: morte e ressurreição, renovação por parte d’Aquele que se havia revelado e havia falado com ele. Neste sentido mais profundo, podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todos seus parâmetros. Agora se pode dizer que o que para ele antes era essencial e fundamental se converteu em «lixo», já não há «lucro», mas perda, porque agora só importa a vida em Cristo.
Contudo, não devemos pensar que Paulo se fechou cegamente em um acontecimento. Na realidade, acontece o contrário, porque o Cristo ressuscitado é a luz da verdade, a luz do próprio Deus. Isso engrandeceu seu coração, abriu-o a todos. Neste momento não perdeu o que havia de bom e de verdadeiro em sua vida, em sua herança, mas compreendeu de forma nova a sabedoria, a verdade, a profundidade da lei e dos profetas, e se apropriou deles de modo novo. Ao mesmo tempo, sua razão se abriu à sabedoria dos pagãos; tendo-se aberto a Cristo com todo seu coração, ele se converteu em capaz de estabelecer um diálogo amplo com todos, fez-se capaz de fazer-se tudo para todos. Assim realmente podia ser o apóstolo dos pagãos.
Passemos agora à nossa situação; o que isso quer dizer para nós? Quer dizer que também para nós o cristianismo não é uma filosofia nova ou uma nova moral. Só somos cristãos se encontramos Cristo. Certamente, Ele não se mostra a nós dessa forma irresistível, luminosa, como o fez com Paulo para transformá-lo em Apóstolo de todos os povos. Mas também nós podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso. Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos convertemos realmente em cristãos. E assim se abre nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade. Portanto, oremos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos conceda em nosso mundo o encontro com sua presença e assim nos dê uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para com todos, capaz de renovar o mundo.

Escrito por Pe. Henrique às 19h06
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Bento XVI: Uma breve biografia de São Paulo
Eis uma outra Catequese do Santo Padre sobre São Paulo:

Hoje gostaria de retomar e continuar a reflexão sobre o Apóstolo dos gentios, propondo uma sua breve biografia. Dado que dedicaremos a próxima quarta-feira ao acontecimento extraordinário que se verificou no caminho de Damasco, a conversão de Paulo, mudança fundamental da sua existência a seguir ao encontro com Cristo, hoje reflictamos brevemente sobre o conjunto da sua vida. Encontramos os dados biográficos de Paulo, respectivamente, na Carta a Filémon, onde ele se declara "velho" (Fm 1, 9: presbýtes) e nos Actos dos Apóstolos que, no momento da lapidação de Estêvão, o qualificam "jovem" (7, 58: neanías). As duas designações são evidentemente genéricas mas, em conformidade com as medidas antigas, "jovem" era qualificado o homem com cerca de trinta anos, e dizia-se "velho" quando tinha por volta de sessenta anos. Em termos absolutos, a data do nascimento de Paulo depende em grande parte da data da Carta a Filémon. Tradicionalmente, a sua redacção é posta durante o aprisionamento romano, nos meados dos anos 60. Paulo teria nascido no ano 8, portanto contaria mais ou menos sessenta anos, enquanto no momento da lapidação de Estêvão tinha trinta. Esta deveria ser a cronologia correcta. E a celebração do ano paulino que nós fazemos segue precisamente esta cronologia. Foi escolhido o ano de 2008, pensando num nascimento mais ou menos no ano 8.
De qualquer maneira, ele nasceu em Tarso na Cilícia (cf. Act 22, 3). A cidade era capital administrativa da região e em 51 a.C. teve como Procônsul nada menos que Marco Túlio Cícero, enquanto dez anos mais tarde, em 41, Tarso fora o lugar do primeiro encontro entre Marco António e Cleópatra. Judeu da diáspora, ele falava grego, embora tivesse um nome de origem latina, de resto derivado por assonância do originário hebraico Saul/Saulos, que tinha a cidadania romana (cf. Act 22, 25-28). Portanto, Paulo aparece inserido na fronteira de três culturas romana, grega e judaica e talvez também por isso era disponível a fecundas aberturas universalistas, a uma mediação entre as culturas, a uma verdadeira universalidade. Ele aprendeu também um trabalho manual, talvez herdado do pai, que consistia na profissão de "tendeiro" (cf. Act 18, 3: skenopoiós), que provavelmente deve ser entendido como alguém que trabalha a lã tosca de cabra ou as fibras de linho para fazer esteiras ou tendas (cf. Act 20, 33-35). Por volta dos 12-13 anos, a idade em que o adolescente judeu se torna bar mitzvá ("filho do preceito"), Paulo deixou Tarso e transferiu-se para Jerusalém, para ser educado aos pés do rabino Gamaliel, o Ancião, neto do grande Rabino Hillel, segundo as mais rígidas normas do farisaísmo, e adquirindo um grande zelo pela Torá mosaica (cf. Gl 1, 14; Fl 3, 5-6; Act 22, 3; 23, 6; 26, 5).
Com base nesta profunda ortodoxia, que tinha aprendido na escola de Hilel em Jerusalém, entreviu no novo movimento que se inspirava em Jesus de Nazaré um risco, uma ameaça para a identidade judaica, para a verdadeira ortodoxia dos pais. Isto explica o facto de que ele, ferozmente, "perseguiu a Igreja de Deus", como três vezes admitirá nas suas Cartas (cf. 1 Cor 15, 9; Gl 1, 13; Fl 3, 6). Embora não seja fácil imaginar concretamente em que consistia esta perseguição, de qualquer maneira a sua atitude era de intolerância. É aqui que se insere o acontecimento de Damasco, a respeito do qual voltaremos a falar na próxima catequese. É certo que, daquele momento em diante, a sua vida mudou e ele tornou-se um incansável apóstolo do Evangelho. Com efeito, Paulo passou para a história mais por aquilo que fez como cristão, aliás como apóstolo, do que como fariseu. Tradicionalmente, subdivide-se a sua atividade apostólica com base nas três viagens missionárias, à qual se acrescenta a quarta, a ida a Roma como prisioneiro. Todas elas são narradas por Lucas nos Actos. Porém, a propósito das três viagens missionárias, é necessário distinguir a primeira das outras duas.
Com efeito, da primeira (cf. Act 13-14) Paulo não teve a responsabilidade directa, que foi ao contrário confiada ao cipriota Barnabé. Juntamente com eles, partiram de Antioquia sobre o Oronte, enviados por aquela Igreja (cf. Act 13, 1-3) e, depois de terem sarpado do porto de Selêucia na costa síria, atravessaram a ilha de Chipre de Salamina a Pafos; dali chegaram à costa meridional da Anatólia, hoje Turquia, e passaram pelas cidades de Atália, Perga da Panfília, Antioquia da Pisídia, Icónio, Listra e Derbe, de onde regressaram ao ponto de partida. Assim nasceu a Igreja dos povos, a Igreja dos pagãos. Entretanto, sobretudo em Jerusalém, nasceu um debate árduo, até que ponto estes cristãos provenientes do paganismo eram obrigados a entrar também na vida e na lei de Israel (várias observações e prescrições que separavam Israel do resto do mundo), para ser realmente partícipes das promessas dos profetas e para entrar efectivamente na herança de Israel. A fim de resolver este problema fundamental para o nascimento da Igreja futura, reuniu-se em Jerusalém o chamado Concílio dos Apóstolos, para decidir a respeito deste problema, do qual dependia o nascimento efectivo de uma Igreja universal. E foi decidido não impor aos pagãos convertidos a observância da lei mosaica (cf. Act 15, 6-30): ou seja, não eram obrigados às normas do judaísmo; a única necessidade era pertencer a Cristo, viver com Cristo e segundo as suas palavras. Assim, sendo de Cristo, eram também de Abraão, de Deus e partícipes de todas as promessas. Depois deste acontecimento decisivo, Paulo separou-se de Barnabé, escolheu Sila e começou a segunda viagem missionária (cf. Act 15, 36-18, 22). Tendo ultrapassado a Síria e a Cilícia, reviu a cidade de Listra, onde tomou consigo Timóteo (figura muito importante da Igreja nascente, filho de uma judia e de um pagão) e fê-lo circuncidar, atravessou a Anatólia central e chegou à cidade de Tróade, na costa setentrional do Mar Egeu. E aqui novamente teve lugar um acontecimento importante: viu em sonhos um macedónio da outra parte do mar, ou seja, na Europa, que dizia: "Vem e ajuda-me!". Era a Europa futura que pedia a ajuda e a luz do Evangelho. Impelido por esta visão, entrou na Europa. Daqui, sarpou para a Macedónia, entrando assim na Europa. Tendo desembarcado em Nápoles, chegou a Filipos, onde fundou uma bonita comunidade, depois passou por Tessalonica e, partindo daí devido às dificuldades que lhe causaram os judeus, passou por Bereia e chegou a Atenas.
Nesta capital da antiga cultura grega pregou, primeiro no Ágora e depois no Areópago, aos pagãos e aos gregos. E o discurso do Areópago, mencionado nos Actos dos Apóstolos, é modelo do modo como traduzir o Evangelho em cultura grega, de como fazer com que os gregos compreendam que este Deus dos cristãos, dos judeus, não é um Deus alheio à sua cultura, mas o Deus desconhecido por eles esperado, a verdadeira resposta às mais profundas interrogações da sua cultura. Depois, de Atenas chegou a Corinto, onde se deteve por um ano e meio. E ali temos um acontecimento cronologicamente muito seguro, o mais seguro de toda a sua biografia, porque durante esta primeira estadia em Corinto ele teve que comparecer diante do Governador da província senatorial de Acaia, o Procônsul Galião, acusado de um culto ilegítimo. Sobre este Galião e sobre o seu período em Corinto existe uma antiga inscrição encontrada em Delfos, onde se diz que era Procônsul em Corinto, entre os anos 51 e 53. Por conseguinte, aqui temos uma data absolutamente certa. A estadia de Paulo em Corinto teve lugar naqueles anos. Portanto, podemos supor que chegou mais ou menos no ano 50 e permaneceu ali até 52. Depois, de Corinto, passando por Cêncreas, porto oriental da cidade, dirigiu-se para a Palestina, chegando a Cesareia Marítima, de onde subiu a Jerusalém e então voltou para Antioquia sobre o Oronte.
A terceira viagem missionária (cf. Act 18, 23-21, 6) teve início como sempre em Antioquia, que se tinha tornado o ponto de origem da Igreja dos pagãos, da missão aos pagãos, e era também o lugar onde nasceu o termo "cristãos". Aqui, pela primeira vez, diz-nos São Lucas, os seguidores de Jesus foram chamados "cristãos". Dali Paulo partiu directamente para Éfeso, capital da província da Ásia, onde permaneceu durante dois anos, desempenhando um ministério que teve fecundas influências na região. De Éfeso, Paulo escreveu as cartas aos Tessalonicenses e aos Coríntios. Porém, a população da cidade foi instigada contra ele pelos cambistas locais, que viam diminuir as suas receitas pela redução do culto a Artemides (o templo a ela dedicado em Éfeso, o Artemysion, era uma das sete maravilhas do mundo antigo); por isso, ele teve que fugir para o norte. Tendo atravessado novamente a Macedónia, voltou à Grécia, provavelmente a Corinto, aí permanecendo três meses e escrevendo a célebre Carta aos Romanos.
Daí voltou a percorrer os seus passos: passou de novo pela Macedónia, de navio chegou a Tróade e depois, passando somente pelas ilhas de Mitilene, Chio e Samo, chegou a Mileto, onde pronunciou um importante discurso aos Anciãos da Igreja de Éfeso, dando um retrato do verdadeiro pastor da Igreja (cf. Act 20). Daí partiu novamente, içando as velas rumo a Tiro, de onde depois chegou a Cesareia Marítima para subir mais uma vez a Jerusalém. Ali foi preso por causa de um mal-entendido: alguns judeus julgaram que fossem pagãos outros judeus de origem grega, introduzidos por Paulo na área do templo reservada exclusivamente aos israelitas. A prevista condenação à morte foi-lhe poupada graças à intervenção do tribuno romano de guarda na área do Templo (cf. Act 21, 27-36); isto verificou-se quando o Procônsul na Judeia era António Felice. depois de ter passado um período de prisão (cuja duração é discutível), e tendo Paulo, como cidadão romano, feito apelo a César (que então era Nero), o sucessivo Procurador Pórcio Festo convidou-o para ir a Roma sob a guarda militar.
Na viagem para Roma passou pelas ilhas mediterrâneas de Creta e Malta, e depois pelas cidades de Siracusa, Régio da Calábria e Pozuóli. Os crisãos de Roma foram ao seu encontro na Via Ápia, até ao Foro de Ápio (aprox. 70 km a sul da capital) e outros até às Três Tavernas (aprox. 40 km). Em Roma encontrou-se com os delegados da comunidade judaica, à qual confiou que era "a esperança de Israel" que trazia as suas cadeias (cf. Act 28, 20). No entanto, a narração de Lucas termina com a menção de dois anos passados em Roma sob uma branda guarda militar, sem se referir a uma sentença de César (Nero) e muito menos à morte do acusado. Tradições sucessivas falam de uma sua libertação, que teria favorecido tanto uma viagem missionária à Espanha, como uma sucessiva passagem pelo oriente e, especificamente, por Creta, Éfeso e Nicópoles em Épiro. Sempre com base hipotética, supõe-se uma nova detenção e um segundo aprisionamento em Roma (de onde teria escrito as três Cartas chamadas Pastorais, ou seja, duas a Timóteo e uma a Tito), com um segundo processo, que lhe seria desfavorável. Todavia, uma série de motivos induz muitos estudiosos de São Paulo a rematar a biografia do Apóstolo com a narração lucana dos Actos.
Sobre o seu martírio voltaremos a falar em seguida, no ciclo destas nossas catequeses. Entretanto, neste breve elenco das viagens de Paulo, é suficiente saber como ele se dedicou ao anúncio do evangelho sem poupar energias, enfrentando uma série de provas gravosas, das quais nos deixou o elenco na segunda Carta aos Coríntios (cf. 11, 21-28). De resto, é ele quem escreve: "Faço tudo por causa do Evangelho" (1 Cor 9, 23), exercendo com absoluta generosidade aquela à qual ele chama "solicitude por todas as Igrejas" (2 Cor 11, 28). Vemos um compromisso que só se explica com uma alma realmente fascinada pela luz do Evangelho, apaixonada por Cristo, uma alma sustentada por uma profunda convicção: é necessário levar ao mundo a luz de Cristo, anunciar o Evangelho a todos. Parece-me que é isto que permanece desta breve resenha das viagens de São Paulo: ver a sua paixão pelo Evangelho, intuir assim a grandeza, a beleza, aliás a profunda necessidade do Evangelho para todos nós. Rezemos a fim de que o Senhor, que fez ver a sua luz a Paulo, que lhe fez ouvir a sua Palavra e lhe tocou intimamente o coração, permita que também nós vejamos a sua luz, para que inclusive o nosso coração seja tocado pela sua Palavra e assim possamos também nós dar ao mundo de hoje, que deles tem sede, a luz do Evangelho e a verdade de Cristo.

Escrito por Pe. Henrique às 19h03
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Bento XVI: Pauolo Apóstolo e seu ambiente
Eis a primeira de uma série de catequeses que o Santo Padre Bento XVI está fazendo neste Ano Paulino.

Hoje gostaria de começar um novo ciclo de Catequeses, dedicado ao grande Apóstolo São Paulo. A ele, como sabeis, é consagrado este ano, que iniciou na festa litúrgica dos Santos Pedro e Paulo de 29 de Junho de 2008 e terminará com a mesma festa em 2009. O Apóstolo Paulo, figura excelsa e quase inimitável, mas de qualquer maneira estimulante, está diante de nós como exemplo de total dedicação ao Senhor e à sua Igreja, bem como de grande abertura à humanidade e às suas culturas. Portanto, é justo que lhe reservemos um lugar especial, não só na nossa veneração, mas também no esforço de compreender aquilo que ele tem para nos dizer, a nós cristãos de hoje. Neste nosso primeiro encontro, queremos deter-nos para considerar o ambiente em que se encontrou a viver e a agir. Um tema deste género pareceria levar-nos para longe do nosso tempo, visto que devemos inserir-nos no mundo de há dois mil anos. E todavia isto só é verdade aparentemente e, de qualquer forma apenas de modo parcial, porque poderemos constatar que, sob vários aspectos, o contexto sociocultural de hoje não se diferencia muito do de então.
Um factor primário e fundamental que se deve ter presente é constituído pela relação entre o ambiente em que Paulo nasce e se desenvolve, e o contexto global em que sucessivamente se insere. Ele vem de uma cultura bem específica a circunscrita, certamente minoritária, que é a do povo de Israel e da sua tradição. No mundo antigo e nomeadamente no âmbito do Império Romano, como nos ensinam os estudiosos da matéria, os judeus deviam representar cerca de 10% da população total; depois em Roma, por volta dos meados do século I o seu número era ainda menor, alcançando ao máximo 3% dos habitantes da cidade. Os seus credos e o seu estilo de vida, como acontece também hoje, distinguiam-nos claramente do ambiente circunstante; e isto podia ter dois resultados: ou a ridicularização, que podia levar à intolerância, ou então a admiração, que se exprimia de várias formas de simpatia, como no caso dos "tementes a Deus" ou dos "prosélitos", pagãos que se associavam à sinagoga e partilhavam a fé no Deus de Israel. Como exemplos concretos desta dupla atitude podemos citar, por um lado, o juízo pungente de um orador como Cícero, que desprezava a sua religião e até a cidade de Jerusalém (cf. Pro Flacco, 66-69) e, por outro, a atitude da esposa de Nero, Pompéia, que é recordada por Flávio Josefo como "simpatizante" dos judeus (cf. Antiguidades judaicas 20, 195.252; Vita 16), sem mencionar que já Júlio César lhes tinha oficialmente reconhecido alguns direitos particulares que nos foram legados pelo mencionado historiador judeu Flávio Josefo (cf. ibid., 14, 200-216). Sem dúvida, o número de judeus, como de resto acontece ainda hoje, era muito maior fora da terra de Israel, ou seja na diáspora, do que no território que os outros chamavam Palestina.
Portanto, não admira que o próprio Paulo tenha sido objeto da dupla e contrastante avaliação de que falei. Uma coisa é segura: o particularismo da cultura e da religião judaica encontra tranquilamente lugar no interior de uma instituição tão onipresente como era o império romano. Mais difícil e sofrida foi a posição do grupo daqueles, judeus ou gentios, que aderiram com fé à pessoa de Jesus de Nazaré, na medida em que se distinguiram quer do judaísmo quer do paganismo imperante. De qualquer forma, dois fatores favoreceram o compromisso de Paulo. O primeiro foi a cultura grega, ou melhor helenista, que depois de Alexandre Magno se tinha tornado patrimônio comum pelo menos do Mediterrâneo oriental e do Médio Oriente, mesmo que tenha integrado em si muitos elementos das culturas de povos tradicionalmente considerados bárbaros. Um escritor dessa época afirma, a este propósito, que Alexandre "ordenou que todos considerassem como pátria toda a ecumene... e que o Grego e o Bárbaro já não se distinguissem" (Plutarco, De Alexandri Magni fortuna aut virtute 6.8). O segundo fator foi a estrutura político-administrativa do império romano, que garantia paz e estabilidade desde a Britânia até ao Egito meridional, unificando um território de dimensões nunca vistas. Neste espaço podia-se mover com suficiente liberdade e segurança, usufruindo entre outras coisas de um sistema rodoviário extraordinário, e encontrando em cada ponto de chegada características culturais de base que, sem prejudicar os valores locais, representavam contudo um tecido comum de unificação super partes, a tal ponto que o filósofo judeu Filon Alexandrino, contemporâneo do próprio Paulo, elogia o imperador Augusto, porque "compôs em harmonia todos os povos selvagens... tornando-se guardião da paz" (Legatio ad Caium 146-147).
A visão universalista típica da personalidade de São Paulo, pelo menos do Paulo cristão sucessivo ao acontecimento do caminho de Damasco, deve certamente o seu impulso básico à fé em Jesus Cristo, enquanto a figura do Ressuscitado se situa além de qualquer limite particularista; com efeito, para o Apóstolo "já não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo" (Gl 3, 28). Todavia, também a situação histórico-cultural do seu tempo e do seu ambiente não deixou de influenciar as escolhas e o seu compromisso. Alguém definiu Paulo "homem de três culturas", tendo em consideração a sua matriz judaica, a sua língua grega e a sua prerrogativa de "civis romanus", como atesta também o nome de origem latina. Há que recordar de modo especial a filosofia estóica, que na época de Paulo era predominante e que influiu, embora em medida marginal, também sobre o cristianismo. A este propósito, não podemos deixar de mencionar alguns nomes de filósofos estóicos, como os iniciadores Zenão e Cleante, e depois os que cronologicamente estão mais próximos de Paulo, como Sêneca, Musônio e Epiteto: neles encontram-se elevadíssimos valores de humanidade e de sabedoria, que naturalmente serão recebidos no cristianismo. Como escreve de modo excelente um estudioso da matéria, "a Stoa... anunciou um novo ideal, que impunha ao homem deveres em relação ao seu próximo, mas ao mesmo tempo libertava-o de todos os vínculos físicos e nacionais, e dele fazia um ser puramente espiritual" (M. Pohlenz, La Stoa, I, Florença 2 1978, págs. 565 s.). Pensemos, por exemplo, na doutrina do universo entendido como um único grande corpo harmonioso e, consequentemente, na doutrina da igualdade entre todos os homens sem distinções sociais, na equiparação pelo menos de princípio entre o homem e a mulher, e depois no ideal da frugalidade, da justa medida e do domínio de si para evitar qualquer excesso. Quando Paulo escreve aos Filipenses: "Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de algum modo mereça louvor, é o que deveis ter em mente" (Fl 4, 8), não faz senão retomar uma concepção claramente humanista própria daquela sabedoria filosófica.
Na época de São Paulo havia também uma crise da religião tradicional, pelo menos nos seus aspectos mitológicos e também cívicos. Depois que Lucrécio já um século antes, tinha polemicamente asseverado que "a religião conduziu a muitas injustiças" (De rerum natura, 1, 101), um filósofo como Sêneca, indo muito além de todo o ritualismo meramente exterior, ensinava que "Deus está próximo de ti, está contigo, está dentro de ti" (Cartas a Lucílio, 41, 1). Analogamente, quando Paulo se dirige a um auditório de filósofos epicureus e estóicos no Areópago de Atenas, diz textualmente que "Deus não habita em santuários feitos por mãos humanas... mas nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17, 24.28). Com isto, ele certamente faz ressoar a fé judaica num Deus não representável em termos antropomórficos, mas põe-se também numa sintonia religiosa que os seus ouvintes conheciam bem. Além disso, temos que ter em conta o facto de que muitos cultos pagãos prescindiam dos templos oficiais da cidade e se realizavam em lugares particulares que favoreciam a iniciação dos adeptos. Por isso, não constituía motivo de admiração, o fato de que também as reuniões cristãs (as Ekklesíai), como nos atestam sobretudo as Cartas paulinas, se realizassem em casas particulares. De resto, nessa época ainda não existia qualquer edifício público. Portanto, as reuniões dos cristãos deviam parecer aos contemporâneos como uma simples variante desta sua prática religiosa mais íntima. De qualquer forma, as diferenças entre os cultos pagãos e o culto cristão não são de pouca monta e dizem respeito tanto à consciência identitária dos participantes como a participação comum de homens e mulheres, a celebração da "ceia do Senhor" e a leitura das Escrituras.
Em conclusão, desta rápida série sobre o ambiente cultural do século I da era cristã parece claro que não é possível compreender adequadamente São Paulo sem o inserir no contexto, tanto judaico como pagão, do seu tempo. Deste modo, a sua figura adquire valor histórico e ideal, revelando partilha e ao mesmo tempo originalidade em relação ao ambiente. Mas isto vale analogamente também para o cristianismo em geral, do qual precisamente o Apóstolo Paulo constitui um paradigma de primeira ordem, do qual todos nós temos sempre muito a aprender. Esta é a finalidade do Ano Paulino: aprender de São Paulo, aprender a fé, aprender Cristo e, enfim, aprender o caminho da vida reta.

Escrito por Pe. Henrique às 18h57
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A beleza do Logos
Dos sermões do Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)
O instante a que a Bíblia chama "o princípio" mostra-nos Aquele que tinha o poder de criar o ser e de dizer: "Faça-se!" e isso ser feito (Gn 1,1-3)... Essa palavra "Faça-se!" não gerou um magma caótico. Quanto mais conhecemos o universo, mais encontramos nele uma racionalidade cujos caminhos, ao serem percorridos pelo pensamento, nos deixam maravilhados. Através deles, descobrimos esse Espírito criador a quem devemos igualmente a razão. Albert Einstein escreveu que, nas leis da natureza, "se manifesta uma razão tão superior que toda a racionalidade do pensamento e da vontade humana parece ser, por comparação, um reflexo absolutamente insignificante".
Constatamos que o infinitamente grande, o universo das estrelas, é regido pelo poder de uma Razão [Logos]. Mas aprendemos igualmente cada vez mais acerca do infinitamente pequeno, a célula, os elementos fundamentais do ser vivo. Também aí descobrimos uma racionalidade que nos espanta, de tal forma que temos de dizer, com São Boaventura: "Quem não vê isso, é cego. Quem não o ouve, é surdo. E quem não começa a rezar e a louvar o Espírito criador, é mudo"...
Através da racionalidade da criação, o próprio Deus nos olha. A física e a biologia, todas as ciências em geral, nos ofereceram uma nova e inaudita narrativa da criação. Essas imagens grandes e novas fazem-nos conhecer o rosto do Criador. Recordam-nos que, no princípio, e no mais profundo de cada ser, está o Espírito criador. O mundo não saiu das trevas e do absurdo. Brotou da inteligência, da liberdade, da beleza que é amor. Ver tudo isto dá-nos a coragem que nos permite viver e nos torna capazes de, com confiança, tomar sobre os nossos ombros a aventura da vida.

Categoria: Meditações
Escrito por Pe. Henrique às 17h54
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O sagrado e o santo nos sacramentos
Caro Leitor meu, com imenso prazer apresento-lhe este texto do teólogo italiano Inos Biffi. Este belíssimo artigo apareceu na edição italiana do jornal da Santa Sé, L’Osservatore Romano de 29 de agosto, com o título “O sagrado e o santo nos sacramentos cristãos”. É uma leitura que deve causar reflexão...

O “santo” e o “sagrado”: falemos deles numa perspectiva cristã, para observar imediatamente que o valor absoluto é o “santo”, ou seja, o estado de graça, de comunhão com Cristo, de vida segundo o Espírito. Para um cristão não há nada que valha e seja tão definitivo quanto a santidade, que é a razão mesma da existência do homem, criado para ser conforme ao Filho de Deus (Rm 8,29), no qual foi escolhido para ser “santo e imaculado” (Ef 1,4).
A graça, destinada a cumprir-se na glória, é uma propriedade que marca a pessoa, que lhe pertence e a qualifica; ela não serve para algo de ulterior, não é uma qualidade passageira ou provisória, nem uma condição que serve de meio, mas é feita para permanecer e ser definitiva e conclusiva, como fim último.
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