Visão cristã


O mistério da virgindade fecunda

Dos Escritos de Santo Agostinho (354-430), bispo e doutor da Igreja:

 

As que se consagram inteiramente ao Senhor não devem afligir-se pelo fato de, guardando a sua virgindade como Maria, não se poderem tornar mães segundo a carne. Aquele que é o fruto de uma única Virgem santa é a glória e a honra de todas as outras santas virgens, pois, tal como Maria, elas são mães de Cristo, se fizerem a vontade de Seu Pai.

A glória e a felicidade de Maria como Mãe de Cristo brilha sobretudo nas palavras do Senhor: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe.» Ele indica assim a paternidade espiritual que O liga ao povo que resgatou. Os Seus irmãos e irmãs são os santos homens e as santas mulheres que são co-herdeiros com Ele da Sua herança celeste (cf Rm 8,17).

Sua mãe é a totalidade da Igreja, pois é ela que, pela graça de Deus, dá à luz os membros de Cristo, isto é, àqueles que Lhe são fiéis. Sua mãe é ainda toda a alma santa que faz a vontade de Seu Pai e onde a caridade fecunda se manifesta naqueles que dá à luz por Ele, «até que Cristo Se forme entre vós» (Gl 4,19).

Entre todas as mulheres, Maria é a única que é ao mesmo tempo virgem e mãe, não apenas pelo espírito, mas também com o corpo. Ela é Mãe segundo o espírito dos membros de Cristo, isto é, de nós próprios, porque cooperou com a sua caridade para dar à luz, na Igreja, os fiéis, que são os membros desse Chefe divino, nossa cabeça (cf. Ef 4,15-16), de Quem Ela é verdadeiramente Mãe segundo a carne.

Era preciso, com efeito, que o nosso Chefe nascesse segundo a carne duma virgem, para nos ensinar que os Seus membros deveriam nascer, segundo o espírito, doutra virgem, que é a Igreja. Maria é, assim, a única que é Mãe e Virgem ao mesmo tempo, tanto no corpo como no espírito. Mas também a totalidade da Igreja, nos seus santos que deverão possuir o Reino de Deus, é, segundo o espírito, mãe de Cristo e virgem de Cristo.

 

 



Escrito por Dom Henrique às 00h45
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Ao Cristo nosso Deus, mestre da humanidade

Ainda um outro hino ao Salvador nosso. Desta vez, de São Cirilo de Alexandria, do século III. Rezar, cantar, louvar, contemplar, silenciar: eis o melhor modo de compreender com o coração Aquele que é o Salvador do mundo, o Criador de tudo! No barulho o Senhor não fala; no excesso de palavras, o Senhor silencia e se ausenta! “Para ti, Deus de Israel, o silêncio é louvor!”

 

Ó Cristo, Senhor dos eleitos,

Palavra incorruptível de Deus Pai,

príncipe da sabedoria,

sustento nas fadigas,

alegria sem fim!

Jesus, Salvador do gênero humano,

pastor, protetor, guia e educador,

caminho celeste do rebanho dos santos!

Pescador de homens, tu vens nos arrancar do mar do vício;

arrancas os peixes poupados da onda ameaçadora

e os levas até a vida bendita.

Conduze-nos, pastor do rebanho humano;

reina, ó Santo, sobre os filhos que redimiste!

Os teus passos são a estrada do céu!

Ó Verbo eterno, tempo infinito,

luz imortal, fonte de misericórdia,

promotor da virtude, prêmio incomparável de quem honra o Altíssimo!

 

 



Escrito por Dom Henrique às 00h08
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Hino ao Cristo, Deus feito homem por nós

Para rezar, meu caro Internauta, adorando o Cristo nosso Deus. Trata-se de um texto do século III, da liturgia caldeia.

 

Nós afirmamos a tua presença, Senhor Jesus, nós teus servos, aos quais fizeste um dom imenso, que não podemos pagar.

Revestiste-te da nossa humanidade,

desceste com a tua divindade,

elevaste a nossa pequenez,

ergueste a nossa prostração,

ressuscitaste a nossa carne mortal,

perdoaste as nossas culpas,

pagaste o nosso débito;

iluminaste a nossa inteligência,

venceste os nossos inimigos,

honraste a nossa pobreza.

Senhor, nosso Deus, à superabundância da tua graça correspondemos com o canto de glória, proclamação e adoração, agora e por todos os séculos!

 

 



Escrito por Dom Henrique às 23h34
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Soneto a Cristo crucificado

Meu caro Internauta, medite nestas palavras, provavelmente de Santa Teresa d'Ávila. São amor puro ao Senhor! Ele nos conceda um coração assim!

 

Não me move, meu Deus, para querer-te

o Céu que me tens prometido

nem me move o inferno tão temido

para deixar, por isso, de ofender-te.

 

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te

cravado em uma cruz e escarnecido;

move-me ver teu corpo tão ferido,

movem-me tuas afrontas e tua morte!

 

Move-me, enfim, teu amor, e de tal meneira

que, ainda que não houvesse céu, eu te amaria

e, ainda que não houvesse inferno, te temeria.

 

Não tens que me dar para que eu te queira,

pois ainda que quanto espero não esperasse,

o mesmo que te quero quereria!

 

 

 

Para ourvi-lo cantato, no original espanhol: http://www.youtube.com/watch?v=KnWHYV4sSTc&feature=youtube_gdata_player. Vale a pena!



Escrito por Dom Henrique às 00h48
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A má-fé da imprensa em relação ao Papa

 

Caro Internauta, observe a sujeira e a má-fé da imprensa de modo geral quando se trata da Igreja e do Papa Bento XVI. Leia este trecho da palavra do Santo Padre, discursando para os embaixadores dos países que têm relação com a Santa Sé, no último dia 9 de janeiro:

A educação é um tema crucial para todas as gerações, pois depende dela tanto o desenvolvimento saudável de cada pessoa como o futuro da sociedade inteira. Por isso mesmo, aquela constitui uma tarefa de primária grandeza num tempo difícil e delicado. Para além de um objetivo claro, como é o de levar os jovens a um pleno conhecimento da realidade e, consequentemente, da verdade, a educação tem necessidade de lugares. Dentre estes, conta-se em primeiro lugar a família, fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher; não se trata duma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade.

Por conseguinte, as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade. O quadro familiar é fundamental no percurso educativo e para o próprio desenvolvimento dos indivíduos e dos Estados; consequentemente, são necessárias políticas que o valorizem e colaborem para a sua coesão social e diálogo. É na família que a pessoa se abre ao mundo e à vida e, como tive ocasião de lembrar durante a minha viagem à Croácia, «a abertura à vida é um sinal da abertura ao futuro».

Mais em geral, visando sobretudo o mundo ocidental, estou convencido de que se opõem à educação dos jovens e, consequentemente, ao futuro da humanidade as medidas legislativas que permitem, quando não incentivam, o aborto por motivos de conveniência ou por razões médicas discutíveis.

 

Muito bem! Estas foram as palavras de Bento XVI. Nem mais nem menos. O que a Revista Veja que está nas bancas (edição 2252, 18/01/2012, na seção “Panorama”) afirmou, fazendo eco à imprensa internacional, seguindo a agência de notícias Reuters? Eis, as palavras da Veja, que se considera séria e imparcial: “Endureceu o discurso contra a união homossexual o papa Bento XVI. O pontífice disse para diplomatas de 180 países que o casamento gay é ‘uma ameaça para o futuro da humanidade’”.

Aqui está! Foi assim com o Discurso do Papa em Ratisbona, na passagem em que se referiu a Maomé; foi assim quando falou da “chaga” que é a situação dos casais em segunda união; aqui no Brasil se afirmou que o Papa dissera que os casais em segunda união seriam uma “praga”; foi assim com outras situações sérias, como a atitude do então Cardeal Ratzinger na questão dos pedófilos que estavam no meio do clero emporcalhando o nome de Cristo e da Igreja! Sempre um modo de denegrir, de truncar a verdade para tornar o Papa odioso.

Só para recordar: é claro que a Igreja e o Papa são contra a união homossexual com status de “casamento”. Ninguém é contrário a que duas pessoas do mesmo sexo, adultas e senhoras de si, livremente queiram viver juntas, inclusive com vida sexual ativa. É pecado? Certamente! É contra os preceitos cristãos? Sem dúvida nem apelação! A Igreja chamará de normal e moralmente positivo tal caminho? Nunca! Mas, ninguém pode impedir a relação entre duas pessoas homossexuais nem deve querer impor nada contra a liberdade de ninguém! A Igreja sequer é contra a que um parceiro tenha direitos de herança, benefício saúde e outros, derivados dessa união. O que os cristãos são contrários é que se dê a esta união um estatuto de matrimônio e de família, pois aí já não se trata de respeitar uma minoria, mas destruir o conceito de família próprio da maioria e no qual se estriba a própria civilização ocidental, já tão ferida e desmoralizada... O raciocínio é simples: se tudo é família; nada é família! É o conceito de família de toda a sociedade que fica prejudicado pela imposição de uma minoria que hoje é poderosíssima! Esta é a posição da Igreja, do Papa e de qualquer pessoa de bom senso.

Minha questão aqui é outra: trata-se da desonestidade da imprensa, que sempre procura, de modo capcioso, deturpar as palavras do Papa para torná-lo antipático e odioso ante a opinião pública. Não me preocupo se o Papa agrada ou não à mídia e aos “papas” da cultura secularizada atual; mas me indigna a sordidez dessa imprensa que se quer passar por isenta e honesta.

Uma sugestão? Escreva à Revista Veja protestando e pedindo uma correção! Envie a cópia do discurso do Papa. Está no site do Vaticano: www.vatican.va. É uma questão de justiça!

 

 
O Santo Padre discursando aos embaixadores:
nenhuma palavra sobre os homossexuais...

 



Escrito por Dom Henrique às 02h44
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Para pensar rezando...

Meu Leitor, reze e pense, pense e reze, com as palavras saídas do coração e do gênio de Santo Agostino de Hipona, nas suas Confissões:

 

Meu Deus, como fizeste o céu e a terra?

Evidentemente não criaste o céu e a terra no céu e na terra, nem no ar ou na água, porque também estes pertencem ao céu e à terra. Nem criaste o universo no universo, pois, antes de o criares, não havia espaço onde ele pudesse existir. Nem tinhas à mão matéria alguma com que modelaste o céu e a terra.

E para fazer alguma coisa, de onde terias tomado o que ainda não tinhas feito?

Que criatura existe, senão porque tu existes?

 

 



Escrito por Dom Henrique às 20h48
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Sobre a Liturgia: insistentes ponderações

A liturgia é para nosso alimento, alento e transformação espiritual: ela nos cristifica, isto é, é obra do próprio Cristo que, na potência do Espírito, nos dá sua própria vida, aquela que ele possui em plenitude na sua humanidade glorificada no céu. Participar da liturgia é participar das coisas do céu, é entrar em comunhão com a própria vida plena e glorificada do Cristo nosso Senhor.

A liturgia não é feita produzida por nós, não é obra nossa! Ela é instituição do próprio Senhor. Para se ter uma idéia, basta pensar em Moisés, que vai ao faraó e lhe diz: “Assim fala o Senhor: deixa o meu povo partir para fazer-me uma liturgia no deserto”. E, mais adiante, explica ao faraó que somente lá, no deserto, o Senhor dirá precisamente que tipo de culto e que coisas o povo lhe oferte.

Isto tem a ação litúrgica de específico e encantador: não entramos nela para fazer do nosso modo, mas do modo de Deus; não entramos nela para nos satisfazer, mas para satisfazer a vontade de Deus. Por isso digo tantas vezes que o espaço litúrgico não é primeiramente antropológico, mas teológico: a liturgia é espaço privilegiado para a manifestação e atuação salvífica de Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Nela, a obra salvífica de Cristo é perenemente continuada na Igreja.

O problema é que entrou em certos ambientes da Igreja uma concepção errada de liturgia, totalmente alheia ao sentido da genuína tradição cristã: a liturgia como algo que nós fazemos, do nosso modo, a nosso gosto, para exprimir nossos próprios sentimentos. Numa concepção dessas, o homem, com seus sentimentos, gostos e iniciativas, é o centro e Deus fica de lado! Trata-se, então, de uma simples busca de nós mesmos, produzida por nós mesmos; uma ilusão, pois aí só encontramos nós e os sentimentos que provocamos. É o triste curto-circuito: faz-se tudo aquilo (coreografias, palmas, trejeitos, barulho, baterias infernais, sorrisinhos do celebrante, comentários e cânticos intimistas, invenções impertinentes e despropositadas...) para que as pessoas sintam, liguem-se, “participem”... Mas, tudo isto somente liga a assembleia a si mesma. Não passa de uma exaltação subjetiva e sentimental! Aí não se abre de fato para o Silêncio de Deus, para Aquele que vem nos surpreender com sua glória e sua ação silenciosa, profunda, consistente e transformadora. A assembleia já não celebra com a Igreja de todos os tempos e de todos os lugares; muito menos com a Igreja celeste!

O sentido da liturgia é um outro: é um culto prestado a Deus porque ele é Deus! O interesse é Deus! A liturgia é algo devido a Deus e instituído pelo próprio Deus. Quando alguém participa de uma liturgia celebrada como a Igreja determina e sempre celebrou, se reorienta, se reencontra, toma consciência de sua própria verdade: sou pequeno, dependente de Deus e profundamente amado por ele: nele está minha vida, meu destino, minha verdade, minha paz. Nada é mais libertador que isso.

Vê-se a diferença entre essas duas atitudes ante a realidade litúrgica: na visão que  se está difundindo, criamos uma sensação, uma ilusão. É algo parecido com a sensação de bem-estar que se pode sentir diante de uma paisagem bonita, num bloco de carnaval, num show, num momento sublime, numa noite com a pessoa amada... Na perspectiva que a Igreja sempre teve e ensinou, não! Estamos diante da Verdade que é Deus; verdade que não produzimos nem inventamos, mas vem a nós e enche o nosso coração! Devemos procurá-la? Certamente sim: "Fizeste-nos para ti, Senhor, e nosso coração andará inquieto enquanto não descansar em ti!" Mas para isto é indispensável a capacidade de silêncio, de escuta, de abrir os olhos do coração para a beleza de Deus. A liturgia nos dá isto!

 

 



Escrito por Dom Henrique às 16h11
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Refletindo sobre Hawking - I

Meu caro Internauta, gostaria de retomar algumas questões colocadas naquele texto sobre o físico inglês, Stephen Hawking, e algumas percepções suas. É assim mesmo: a questão da existência de Deus sempre me apaixonou, pois daqui derivam todo um modo de conceber a existência e a razão mesma da nossa fé e de todas as decisões e opções que vamos assumindo ao longo da nossa breve existência sobre a terra. Nunca tomei de modo leviano as objeções contra a existência de Deus; nunca zombei ou menosprezei quem, com sincera seriedade, afirma que Deus não existe! É uma questão grave demais, urgente demais, totalizante demais para ser ignorada!

Três ideias do texto colocado anteriormente, todas procedentes do grande cientista inglês, fizeram-me ficar pensando, matutando, confrontando com a experiência minha e de tantos que ao longo da história acreditaram em Deus...

 

Questão 1:

Tomemos a percepção de Hawking de que “por haver uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar-se a si mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, é a razão pela qual o universo existe, pela qual nós existimos”. O Big Bang teria sido simplesmente uma consequência da lei da gravidade.

Observe, meu Leitor paciente, a contradição da assertiva: se o universo foi criado do “nada” tem necessariamente que haver algo que o tenha tirado desse nada: do nada só vem o nada, se for por iniciativa de nada! A gravidade, diz Hawking, foi a causa de tudo! Então esse "nada" não seria "nada", mas  a gravidade. Pois bem! E de onde procede tal gravidade? Quem a colocou? Qual sua causa primeira, a sua condição de possibilidade? Compreende? É o velho dilema, já apresentado por Aristóteles na filosofia grega e retomado em lances brilhantes por Santo Agostinho, Santo Anselmo de Cantuária, São Tomás de Aquino e outros filósofos. O universo clama e clamará sempre por um Ser que o tenha chamado do nada ao existir; um ser que lhe é anterior e com ele não se confunde nem dele depende!

Qual o erro fundamental do raciocínio de Hawking? Ele pensa Deus não como o Ser absoluto, necessário, eficiente e suficiente, transcendente ao universo (na linguagem bíblica, um Ser assim é chamado “Santo” = Separado, absolutamente Diferente), mas apenas como um ser entre outros; um ser grande, talvez infinito, primordial, mas sempre um ser entre outros! Ora, isto não é Deus! Recordo minha conversa com um físico. Ele me dizia: "O universo repousa num incrível equilíbrio de forças e enrgias. Eis aí Deus!" Errado! Deus não é algo dentro do universo, mas a causa de tudo quanto existe nele, até mesmo desse "equilíbrio"! A tentação de vários cientistas é colocar Deus entre seus objetos de verificação! Ora, como já afirmava Santo Anselmo, Deus é aquele ser cujo maior não pode ser pensado; ele não é um ser; ele é o Ser que origina, envolve e sustenta continuamente todos os seres – a própria raiz do Nome revelado a Moisés revela esta realidade: Iahweh: do verbo hayah, ser, em hebraico. Deus é o Além de tudo e o Aquém de tudo: está para lá de todo o universo e no mais íntimo desse mesmo universo; é seu Princípio absoluto e seu Fim/Finalidade defintivo; suscita e sustenta cada dinamismo existente no cosmo e, ao mesmo tempo, respeita com infinita soberania a consistência real desse mesmo cosmo e, sobretudo, da liberdade humana, por ele criada, motivada e sustentada! Assim, Deus não somente envolve o universo, mas, de dentro dele, o suscita continuamente e permanentemente o sustenta no seu ser e no seu vir-a-ser.

Para ilustrar um pouco o que acabo de afirmar: Por que aquela orquídea produziu tal flor tão deslumbrante? O botânico, com razão, dirá que é próprio da sua espécie, naquela época do ano, sob tais condições que a dita orquídea produza essa flor. Mas, o crente pode também afirmar sem medo algum de errar que a orquídea fez desabrochar aquela flor porque Deus assim o quis, porque a criou para isso, porque Deus é amor e é fiel ao que ele mesmo criou, imprimindo dinamismos na sua criação. São níveis de percepção bem diversos, mas o nível da fé não é menos real que o da ciência experimental. Mais ainda: se o nível da ciência é verificável e controlável até a evidência, o nível da fé é mais profundo e definitivo para a existência! A ciência desvela o dinamismo; mas é a fé que desvela o sentido radical que, em última análise, norteia e dá sabor à existência!

 

 

 



Escrito por Dom Henrique às 03h39
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Refletindo sobre Hawking - II

Questão 2:

Hawking coloca a hipótese de que, se a ciência um dia encontrar um modelo geral que descreva o dinamismo do universo globalmente, terá conhecido a mente de Deus.

Mais uma vez aparece a concepção insuficiente de quem seja Deus! Deus transcende absolutamente a sua criação! Ainda que soubéssemos absolutamente tudo sobre o criado; ainda que cada lei, cada dinamismo a ele inerentes fossem descritos e compreendidos pela ciência, estaríamos infinitamente – atenção: infinitamente! – distantes da mente de Deus! Se Deus revela algo de si na criação, muito mais é o que nela permanece escondido a respeito do seu Criador! Já o IV Concílio de Latrão, em 1215, afirmava, de modo muito mais arguto que Stephen Hawking, que “entre o Criador e a criatura, por quanto grande seja a semelhança, maior é a diferença”, de modo que qualquer semelhança entre Criador e criatura não passa de uma dessemelhança um pouco menos acentuada! Em outras palavras: entre o Criador e as criaturas, entre Deus e o universo o fundamental é a dessemelhança e não a semelhança... Fique claro: o conceito de “ser” em Deus e no universo não é unívoco. Deus É; tudo o mais existe!

Interessante que, além dos bons filósofos e teólogos, também os místicos têm esta percepção da absoluta transcendência divina. Particularmente estes últimos me impressionam: são íntimos de Deus, têm dele uma experiência viva, real, impressionante, que nem a física nem a química nem a psicologia poderiam elucidar; e, no entanto, experimentam esse Deus tão próximo como também e sobretudo infinitamente Distante, Outro, Diferente. Basta o testemunho impressionante de São João da Cruz: “Deus é para a alma durante esta vida nem mais nem menos que noite escura”; e ainda: “É impossível que o entendimento possa ir dar em Deus por meio das criaturas! O caminho para ir a Ti, ó Deus, é caminho santo, isto é, de pureza de fé!” Por fim: “Tudo o que o entendimento pode entender... é muito dessemelhante e desproporcionado a Deus. Para chegar a ele antes há de ir não entendendo que querendo entender...” Aqui – que se note bem! – não se trata de menosprezar a razão e nem mesmo a procura por compreender, mas se trata de se ter a consciência clara de que Deus é o Transcendente, é sempre o Mais Além, o Outro, o Santíssimo!

Toda esta percepção da realidade de Deus é desconhecida e aviltada por Hawking! Seria muito bom que os cientistas tivessem muito cuidado para não caírem no erro em que os teólogos caíram no passado: não ultrapassarem seu âmbito de competência! Em séculos pretéritos, os teólogos quiseram circunscrever as leis da natureza nos dogmas da fé. Erraram. Agora, alguns cientistas caem na tentação de julgar as afirmações da fé a partir das teorias científicas. Cometem o mesmíssimo erro! Pior ainda, pois a fé é mais abrangente e fundamental para o sentido da vida humana que a ciência! Assim, brincam com fogo, pois podem desestabilizar toda a existência humana, jogando-a no desespero do nada, do não-sentido, sobretudo hoje, com a facilidade de difusão das ideias e a aparente onipotência da ciência graças aos resultados imediatos proporcionados pela tecnologia. Jogam-se ideias, divulgadas sensacionalisticamente pela mídia e acolhidas sem o crivo de uma reflexão mais profunda e de uma análise crítica mais acurada. Tais ideias vão criando um humus de cultura secularizada e hedonista que poderá destruir a própria humanidade. Os cientistas não podem eximir-se dessa responsabilidade quanto ao que jogam para o grande público!

 

 

 



Escrito por Dom Henrique às 03h37
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Refletindo sobre Hawking - III

 

Questão 3:

Hawking comparou a ciência e a religião durante uma entrevista, dizendo: "Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona".

Não sei se Hawking falou exatamente assim. Se o fez, disse bobagem indigna de uma inteligência como a sua – mas ninguém é infalível, ou perfeito e sábio o tempo todo!

É verdade que a ciência fundamenta-se na observação e na razão. É verdade que a religião se fundamenta na autoridade (de Deus que se revela e daqueles por ele constituídos como guardiães e intérpretes dessa revelação). Mas, atenção: a religião não é irracional! Ela tem sua racionalidade intrínseca. A teologia, por exemplo, tem seu objeto específico, seu estatuto epistemológico, sua metodologia própria, sua linguagem técnica... Já São Tomás de Aquino, um gênio mais arguto que Hawking, no século XII afirmava que não se deve crer se não houver razões para crer. Santo Anselmo dizia, no século XI, que a fé deve procurar compreender, ou seja, ela tem uma racionalidade, uma sua lógica interna. Se a fé ultrapassa os limites da razão experimental, no entanto não é irracional ou contra a razão!

Não tem sentido afirmar que a ciência ganhará da fé porque “funciona”! Primeiro, fé e razão não estão numa competição, mas em busca da Verdade, cada uma a seu modo, cada uma contribuindo com o que lhe é próprio, cada uma no seu nível de abordagem da realidade! Em segundo lugar, afirmar que a ciência funciona e, por isso, é superior à fé, chega a ser grotesco e leviano! Sem dúvida, a ciência, com seu cabedal de resultados técnicos, facilita a vida das pessoas e tem transformado profundamente a cultura humana. Mas, atenção: nenhum resultado científico responde as questões mais profundas que atormentam a humanidade: o sentido da vida, da dor, da solidão, do sofrimento, da história, da morte... A ciência não tem respostas para este nível de problema. Aqui ela simplesmente não funciona nem funcionará jamais! E estes são os problemas definitivos do homem; são a expressão última da sua dignidade! Reduzir a vida a questões de satisfações de necessidades imediatas e a desenvolvimento tecnológico é indigno de alguém realmente inteligente como o Cientista inglês! O coração humano tem sede de muito mais que bens de consumo e facilidades proporcinadas pela tecnologia! A sede de infinito e de vida que nos atormenta não pode ser saciada pela ciência. Não poderá nunca! Aliás, o próprio Hawking, afirmou, falando sobre a ciência: “Se chegássemos ao fim da linha, o espírito humano definharia e morreria. Mas não creio que um dia sossegaremos: aumentaremos em complexidade, se não em profundidade, e seremos sempre o centro de um horizonte de possibilidade em expansão”. Esta afirmação revela bem a insaciedade do coração humano! Ele dirá sempre: é mais além, é mais adiante, ainda não é isto! Esse Além, esse Destino, esta Saciedade, a ciência nunca poderá fornecer; ela é somente humilde e fascinante expressão da eterna inquietude humana, criada para o Mais Além, o Aonde de tudo quanto existe e da nossa própria vida!

A religião nunca será ultrapassada, nunca ficará obsoleta, pois responde as questões fundamentais do ser e do existir. Se o homem reduzisse seu horizonte ao imediato somente, ao consumo, ao bem estar material, ao fim estaria totalmente alienado e desfigurado. Matar Deus não dignifica o homem; o destrói simplesmente, pois o soterra numa asfixiante falta de sentido. Termino com um poema de Giacomo Leopardi, poeta italiano do século XIX, quando a ciência tinha a pretensão de estar à beira de explicar todo o universo. O poeta imagina um pastor cuidando do seu rebanho, deserto adentro, numa belíssima noite enluarada. E vêm-lhe insistentes pensamentos, dialogados com a lua prateada:

“E sempre que te vejo

Estar tão muda assim sobre o deserto,

Que em seu limite incerto o céu confina,

Ou sobre o meu rebanho,

Indo, indo, a seguir-me bem de perto,

E olhando o céu de estrelas sobre as rochas,

Digo-me a mim, pensando:

Para que tantas tochas?

Que fazem o ar infindo e essa profunda,

Azul serenidade?

Que quer dizer a solidão imensa?

E eu que sou?”

 

Eis, caro Leitor! Perguntas para as quais nem Hawking nem a ciência têm ou terão respostas! Perguntas que só o homem pode fazer; perguntas que nos fazem homens! Se um dia, bêbados pelo que a técnica nos proporciona, deixássemos de fazê-las, já não seríamos humanos, mas apenas hominídeos!

 

 

 



Escrito por Dom Henrique às 03h29
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Mais uma vez o lixo: Big Brother!

É hoje que começa mais um Big Brother? Há algum tempo escrevi sobre o tema, logo quando esse tipo de programa começou a aparecer na TV brasileira. As coisas não mudaram; só pioraram! Eis o texto de então, que faço questão de recordar hoje!

 

A situação é extremamente preocupante: no Brasil, há uma televisão de altíssimo nível técnico e baixíssimo nível de programação. Sem nenhum controle ético por parte da sociedade, os chamados canais abertos (aqueles que se podem assistir gratuitamente) fazem a cabeça dos brasileiros e, com precisão satânica, vão destruindo tudo que encontram pela frente: a sacralidade da família, a fidelidade conjugal, o respeito e veneração dos filhos para com os pais, o sentido de tradição (isto é, saber valorizar e acolher os valores e as experiências das gerações passadas), as virtudes, a castidade, a indissolubilidade do matrimônio, o respeito pela religião, o temor amoroso para com Deus. Na telinha, tudo é permitido, tudo é bonitinho, tudo é novidade, tudo é relativo! Na telinha, a vida é pra gente bonita, sarada, corpo legal... A vida é sucesso, é romance com final feliz, é amor livre, aberto desimpedido, é vida que cada um faz e constrói como bem quer e entende! Na telinha tem a Xuxa, a Xuxinha, inocente, com rostinho de anjo, que ensina às jovens o amor liberado e o sexo sem amor, somente pra fabricar um filho... Na telinha tem o Gugu, que aprendeu com a Xuxa e também fabricou um bebê... Na telinha tem os debates frívolos do Fantástico, show da vida ilusória... Na telinha tem ainda as novelas que ensinam a trair, a mentir, a explorar e a desvalorizar a família... Na telinha tem o show de baixaria do Ratinho e do programa vespertino da Bandeirantes, o cinismo cafona da Hebe, a ilusão da Fama... Enquanto na realidade que ela, a satânica telinha ajuda a criar, temos adolescentes grávidas deixando os pais loucos e a o futuro comprometido, jovens com uma visão fútil e superficial da vida, a violência urbana, em grande parte fruto da demolição das famílias e da ausência de Deus na vida das pessoas, os entorpecentes, um culto ridículo do corpo, a pobreza e a injustiça social... E a telinha destruindo valores e criando ilusão...

E quando se questiona a qualidade da programação e se pede alguma forma de controle sobre os meios de comunicação, as respostas são prontinhas: (1) assiste quem quer e quem gosta, (2) a programação é espelho da vida real, (3) controlar e informação é antidemocrático e ditatorial... Assim, com tais desculpas esfarrapadas, a bênção covarde e omissa de nossos dirigentes dos três poderes e a omissão medrosa das várias organizações da sociedade civil – incluindo a Igreja, infelizmente – vai a televisão envenenando, destruindo, invertendo valores, fazendo da futilidade e do paganismo a marca registrada da comunicação brasileira...

Um triste e último exemplo de tudo isso é o atual programa da Globo, o Big Brother (e também aquela outra porcaria, do SBT, chamada Casa dos Artistas...). Observe-se como o Pedro Bial, apresentador global, chama os personagens do programa: “Meus heróis! Meus guerreiros!” – Pobre Brasil! Que tipo de heróis, que guerreiros! E, no entanto, são essas pessoas absolutamente medíocres e vulgares que são indicadas como modelos para os nossos jovens! Como o programa é feito por pessoas reais, como são na vida, é ainda mais triste e preocupante, porque se pode ver o nível humano tão baixo a que chegamos! Uma semana de convivência e a orgia corria solta... Os palavrões são abundantes, o prato nosso de cada dia... A grande preocupação de todos – assunto de debates, colóquios e até crises – é a forma física e, pra completar a chanchada, esse pessoal, tranqüilamente dá-se as mãos para invocar Jesus... Um jesusinho bem tolinho, invertebrado e inofensivo, que não exige nada, não tem nenhuma influência no comportamento público e privado das pessoas... Um jesusinho de encomenda, a gosto do freguês... que não tem nada a ver com o Jesus vivo e verdadeiro do Evangelho, que é todo carinho, misericórdia e compaixão, mas odeia o fingimento, a hipocrisia, a vulgaridade e a falta de compromisso com ele na vida e exige de nós conversão contínua! Um jesusinho tão bonzinho quanto falsificado... Quanta gente deve ter ficado emocionada com os “heróis” do Pedro Bial cantando “Jesus Cristo, eu estou aqui!”

Até quando a televisão vai assim? Até quando os brasileiros ficaremos calados? Pior ainda: até quando os pais deixarão correr solta a programação televisiva em suas casas sem conversarem sobre o problema com seus filhos e sem exercerem uma sábia e equilibrada censura? Isso mesmo: censura! Os pais devem ter a responsabilidade de saber a que programas de TV seus filhos assistem, que sites da internet seus filhos visitam e, assim, orientar, conversar, analisar com eles o conteúdo de toda essa parafernália de comunicação e, se preciso, censurar este ou aquele programa. Censura com amor, censura com explicação dos motivos, não é mal; é bem! Ninguém é feliz na vida fazendo tudo que quer, ninguém amadurece se não conhece limites; ninguém é verdadeiramente humano se não edifica a vida sobre valores sólidos... E ninguém terá valores sólidos se não aprende desde cedo a escolher, selecionar, buscar o que é belo e bom, evitando o que polui o coração, mancha a consciência e deturpa a razão!

Aqui não se trata de ser moralista, mas de chamar atenção para uma realidade muito grave que tem provocado danos seríssimos na sociedade. Quem dera que de um modo ou de outro, estas linha de editorial servissem para fazer pensar e discutir e modificar o comportamento e as atitudes de algumas pessoas diante dos meios de comunicação...

E se alguém não gostou do que leu, paciência!

 

 



Escrito por Dom Henrique às 21h27
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O Tempo da vida besta

Caro Leitor, já faz tempo que escrevi este texto. Mas, a cada final do Tempo do Natal, recordo dele. Penso que nos ajuda a meditar... Ei-lo, pois, novamente:

 

Com a Festa do Batismo do Senhor, terminou o Tempo do Natal. Após a Missa, retiraram-se a coroa do Advento e o presépio e, no dia seguinte, hoje precisamente, iniciou-se o chamado Tempo Comum, aquele, em que não se celebra nada de especial, a não ser o mistério mesmo do Cristo.

Tempo Comum... Tempo de nada, tempo da mesmice, da vida besta, da qual falava Carlos Drummond de Andrade? “Eta vida besta, meu Deus!” - dizia o poeta.

Não! A cor própria deste período é o verde, exatamente para mostrar que este Tempo Comum não é tempo miúdo, mesquinho da rotina de cada dia! O verde, é o da esperança, aquela que invade o coração de quem sabe que “nasceu para nós um Menino, um Filho nos foi dado”, como dizia Isaías; aquela esperança de quem sabe que o Menino é o Cordeiro de Deus que, morto, ressuscitou e permanece vivo no coração da Igreja e do mundo! O Tempo Comum é o tempo da esperança em Deus, tempo de crer que o Senhor está presente no dia a dia, nas pequenas coisas, que parecem sem sentido e bêbadas de banalidade!

Sabem um bom quadro da Bíblia para compreender este tempo? A vida oculta de Jesus em Nazaré. Alguns curiosos tontos - desses que não entendem nada de Bíblia e se metem a falar do que não sabem - ficam perguntando o que fez Jesus nos trinta anos de vida oculta. Será que foi ao Egito aprender alquimia? Teria ido à Pérsia aprender os segredos dos magos, as mágicas e feitiços dos pagãos? Alguns, alucinados, dizem que fora ao Tibet, aprender meditação... Festival de bobagens; coisas de desmiolados pedantes... De fazerem rir e chorar!

Mas, então, o que fez Jesus nestes trinta anos? O Evangelho diz, revela; é tão claro: ele crescia! Isso mesmo: crescia, em estatura, sabedoria e graça (cf. Lc 2,52), como qualquer criança. Trinta anos de dia a dia, de coisas pequenas, de vidinha igual, rotineira, na acanhada Nazaré, aprendendo a ser gente, a ser homem... Que coisa linda: o Filho de Deus viveu em tudo a nossa condição!

Trinta anos de acordar, trabalhar, rezar, comer e dormir... trinta anos de coisinhas miúdas, tornadas grandes pelo amor de cada dia, desse que a gente quase nem percebe, para nos ensinar a encher de Deus o nosso dia a dia. Isso mesmo: ele se encheu da nossa rotina para que a nossa rotina fosse cheia dele! Eis o sentido do Tempo Comum, tempo verde: dizer que nossos dias, por miudinhos que sejam, são cheios da graça e da verdade de Deus, a tal ponto, que são sementes de eternidade! Aproveitemos o tempo, por comum que seja, e ele será sempre tempo da graça de Deus, tempo de encontrar a eternidade!

Feliz Tempo Comum, caro leitor!

 

 



Escrito por Dom Henrique às 14h06
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Cristo, uma explosão que ilumina o mundo

Meu caro Internauta, proponho-lhe também a leitura de trechos da homilia do Papa Bento XVI na Epifania deste 2012:

 

A Epifania é uma festa da luz. «Ergue-te, Jerusalém, e sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor está sobre ti» (Is 60,1). Com estas palavras do profeta Isaías, a Igreja descreve o conteúdo da festa. Sim, veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira, Aquele que faz com que os homens sejam luz. Dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf. Jo 1,9.12). Para a liturgia, o caminho dos Magos do Oriente é só o início de uma grande procissão que continua ao longo da história inteira. Com estes homens, tem início a peregrinação da humanidade rumo a Jesus Cristo: rumo àquele Deus que nasceu num estábulo, que morreu na cruz e, Ressuscitado, permanece conosco todos os dias até ao fim do mundo (cf. Mt 28,20).

Que tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição astronômica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente. Provavelmente haveria muitos astrônomos na antiga Babilônia, mas poucos, apenas estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no fato de sermos homens. Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: «Uma estrela sai de Jacob, e um cetro se levanta de Israel» (Nm 24, 17). Eles aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem subtil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as privações e o cansaço dum caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante dum menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objetivo do seu caminho exterior e interior.

O coração inquieto, de que falamos inspirando-nos em Santo Agostinho, é o coração que, em última análise, não se satisfaz com nada menos do que Deus e é, precisamente assim, que se torna um coração que ama. O nosso coração vive inquieto por Deus, e não pode ser doutro modo, embora hoje se procure, com «narcóticos» muito eficazes, libertar o homem desta inquietação. Mas não somos só nós, seres humanos, que vivemos inquietos relativamente a Deus. Também o coração de Deus vive inquieto relativamente ao homem. Deus espera-nos. Anda à nossa procura. Também Ele não descansa enquanto não nos tiver encontrado. O coração de Deus vive inquieto, e foi por isso que se pôs a caminho até junto de nós – até Belém, até ao Calvário, de Jerusalém até à Galileia e aos confins do mundo. Deus vive inquieto conosco, anda à procura de pessoas que se deixem contagiar por esta sua inquietação, pela sua paixão por nós; pessoas que vivem a busca que habita no seu coração e, ao mesmo tempo, se deixam tocar no coração pela busca de Deus a nosso respeito. Deixai-vos tocar pela inquietação de Deus, a fim de que o anseio de Deus pelo homem possa ser satisfeito.

Os Magos seguiram a estrela. Através da linguagem da criação, encontraram o Deus da história. É certo que a linguagem da criação, por si só, não é suficiente. Apenas a Palavra de Deus, que encontramos na Sagrada Escritura, podia indicar-lhes definitivamente o caminho. Criação e Escritura, razão e fé devem dar-se as mãos para nos conduzirem ao Deus vivo. Muito se discutiu sobre o tipo de estrela que guiou os Magos. Pensa-se numa conjunção de planetas, numa Supernova, ou seja, uma daquelas estrelas inicialmente muito débeis que, na sequência duma explosão interna, irradia por algum tempo um imenso esplendor, num cometa, etc. Deixemos que os cientistas continuem esta discussão. A grande estrela, a verdadeira Supernova que nos guia é o próprio Cristo. Ele é, por assim dizer, a explosão do amor de Deus, que faz brilhar sobre o mundo o grande fulgor do seu coração. E podemos acrescentar: tanto os Magos do Oriente, mencionados no Evangelho de hoje, como os Santos em geral pouco a pouco tornaram-se eles mesmos constelações de Deus, que nos indicam o caminho. Em todas estas pessoas, o contato com a Palavra de Deus provocou, por assim dizer, uma explosão de luz, através da qual o esplendor de Deus ilumina este nosso mundo e nos indica o caminho.

 

 

 



Escrito por Dom Henrique às 02h09
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Caminhos para encontrar o Criador

Caro Leitor meu, no ano passado já lhe propus esta belíssima homilia do Santo Padre Bento XVI, na Solenidade da Epifania de 2011. Pensando no texto que coloquei logo abaixo, achei por bem apresentar novamente estas sábias considerações do Papa. Devem nos fazer pensar...

 

Na solenidade da Epifania, a Igreja continua a contemplar e a celebrar o mistério do nascimento de Jesus Salvador. Em particular, a celebração hodierna sublinha o destino e o significado universais deste nascimento. Fazendo-se homem no seio de Maria, o Filho de Deus veio não só para o povo de Israel, representado pelos pastores de Belém, mas também para a humanidade inteira, representada pelos Magos. E é precisamente a respeito dos Magos e do seu caminho em busca do Messias (cf. Mt 2, 1-12) que hoje a Igreja nos convida a meditar e a rezar. No Evangelho ouvimos que eles, tendo chegado a Jerusalém provenientes do Oriente, perguntam: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo» (V. 2). Que tipo de pessoas eram, e que espécie de estrela era aquela? Eles eram, provavelmente, sábios que perscrutavam o céu, mas não para procurar «ler» o futuro nos astros, eventualmente para obter disto um lucro; eram sobretudo homens «à procura» de algo mais, em busca da verdadeira luz, que seja capaz de indicar o caminho a percorrer na vida. Eram pessoas convictas de que na criação existe aquela que poderíamos definir como a «assinatura» de Deus, uma assinatura que o homem pode e deve procurar descobrir e decifrar. Talvez o modo para conhecer melhor estes Magos e compreender o seu desejo de se deixar guiar pelos sinais de Deus consista em deter-nos para considerar aquilo que eles encontram ao longo do seu caminho, na grande cidade de Jerusalém.

Em primeiro lugar, encontraram o rei Herodes. Certamente, ele estava interessado no menino de que os Magos falavam; no entanto, não com a finalidade de o adorar, como quer fazer entender, mentindo, mas sim para o suprimir. Herodes é um homem de poder, que no próximo só consegue ver um rival para combater. No fundo, se meditarmos bem, até Deus lhe parece um rival, aliás, um rival particularmente perigoso, que gostaria de privar os homens do seu espaço vital, da sua autonomia, do seu poder; um rival que indica o caminho a percorrer na vida, e assim impede que se realize tudo o que se deseja. Herodes ouve dos seus peritos nas Sagradas Escrituras, as palavras do profeta Miqueias (cf. 5, 1), mas o seu único pensamento é o trono. Então, o próprio Deus deve ser ofuscado e as pessoas devem reduzir-se a ser simples peças para mover no grande tabuleiro do poder. Herodes é uma figura que não nos é simpática e que, instintivamente, julgamos de modo negativo pela sua brutalidade. Mas deveríamos perguntar-nos: existe, porventura, algo de Herodes também em nós? Acaso também nós, às vezes, vemos Deus como uma espécie de rival? Porventura também nós somos cegos diante dos seus sinais, surdos às suas palavras, porque pensamos que Ele impõe limites à nossa vida e não nos permite dispor da existência a nosso bel-prazer? Estimados irmãos e irmãs, quando vemos Deus deste modo, acabamos por nos sentir insatisfeitos e aborrecidos, porque não nos deixamos guiar por Aquele que está no fundamento de tudo. Temos que eliminar da nossa mente e do nosso coração a ideia da rivalidade, a ideia de que conceder espaço a Deus constitui um limite para nós mesmos; devemos abrir-nos à certeza de que Deus é o amor todo-poderoso que nada tira, não ameaça, aliás, é o Único capaz de nos oferecer a possibilidade de viver em plenitude, de sentir a verdadeira alegria.

Sucessivamente, os Magos encontram os estudiosos, os teólogos, os especialistas que sabem tudo sobre as Sagradas Escrituras, que conhecem as suas possíveis interpretações, que são capazes de citar de cor cada um dos seus trechos e que, por conseguinte, são uma ajuda preciosa para quem quer percorrer o caminho de Deus. Contudo, afirma santo Agostinho, eles gostam de ser guias para os outros, indicam a vereda, mas não caminham, permanecem imóveis. Para eles, as Escrituras tornam-se uma espécie de atlas a ler com curiosidade, um conjunto de palavras e de conceitos a examinar e sobre o qual debater com sabedoria. Mas, novamente, podemos interrogar-nos: não existe inclusive em nós a tentação de considerar as Sagradas Escrituras, este tesouro extremamente rico e vital para a fé da Igreja, mais como um objeto para o estudo e o debate dos especialistas, do que o Livro que nos indica o caminho para alcançar a vida? Na minha opinião, como indiquei na Exortação Apostólica Verbum Domini, deveria surgir sempre de novo em nós a profunda disposição a considerar a palavra da Bíblia, lida na Tradição viva da Igreja (cf. n. 18), como a verdade que nos diz o que é o homem, e como pode ele realizar-se plenamente, a verdade que é a senda a percorrer no dia-a-dia, juntamente com os demais, se quisermos construir a nossa existência sobre a rocha, e não sobre a areia.

E agora consideremos a estrela. Que tipo de estrela era aquela que os Magos viram e seguiram? Ao longo dos séculos, esta pergunta foi objecto de debate entre os astrónomos. Kepler, por exemplo, considerava que se tratasse de uma «nova», ou de uma «supernova», ou seja, de uma daquelas estrelas que normalmente emanam uma luz tênue mas que, de repente, podem ter uma violenta explosão interna, que produz uma luz extraordinária. Sem dúvida, coisas interessantes, mas que não nos orientam rumo àquilo que é essencial para compreendemos esta estrela. Temos que remontar ao fato de que aqueles homens buscavam os vestígios de Deus; procuravam ler a sua «assinatura» na criação; sabiam que «narram os céus a glória de Deus» (Sl 19 [18], 2); isto é, estavam persuadidos de que Deus pode ser vislumbrado na criação. No entanto, como homens sábios, estavam conscientes também de que não é com um telescópio qualquer, mas com os profundos olhos da razão em busca do sentido último da realidade, e com o desejo de Deus impelido pela fé, que é possível encontrá-lo, aliás, que se torna possível que Deus se aproxime de nós. O universo não é o resultado do acaso, como alguns querem fazer-nos crer. Contemplando-o, somos convidados a ler nele algo de profundo: a sabedoria do Criador, a fantasia inesgotável de Deus, o seu amor infinito por nós. Não deveríamos deixar limitar a nossa mente por teorias que chegam apenas a um certo ponto e que — se olharmos bem — não estão de modo algum em concorrência com a fé, mas não conseguem explicar o sentido derradeiro da realidade. Na beleza do mundo, no seu mistério, na sua grandeza e na sua racionalidade não podemos deixar de ler a racionalidade eterna, e não podemos deixar de nos fazer guiar por ela até ao único Deus, Criador do céu e da terra. Se tivermos este olhar, veremos que Aquele que criou o mundo e Aquele que nasceu numa gruta em Belém e continua a habitar no meio de nós na Eucaristia são o único Deus vivo, que nos interpela, nos ama e quer conduzir-nos para a vida eterna.

Herodes, os especialistas das Escrituras, a estrela. Mas sigamos o caminho dos Magos, que chegam a Jerusalém. Em cima da grande cidade, a estrela desaparece, já não se vê. O que signfica? Também neste caso, temos que ler o sinal em profundidade. Para aqueles homens, era lógico procurar o novo rei no palácio real, onde se encontravam os sábios conselheiros da corte. Mas, provavelmente para sua surpresa, tiveram que constatar que aquele recém-nascido não se encontrava nos postos do poder e da cultura, embora naqueles lugares lhes tenham sido oferecidas informações preciosas acerca dele. Ao contrário, deram-se conta de que por vezes o poder, inclusive o do conhecimento, impede o caminho rumo ao encontro com aquele Menino. Então, a estrela orientou-os para Belém, uma pequena cidade; guiou-os entre os pobres, entre os humildes, para encontrar o Rei do mundo. Os critérios de Deus são diferentes dos critérios dos homens; Deus não se manifesta no poder deste mundo, mas sim na humildade do seu amor, daquele amor que pede à nossa liberdade para ser recebido para nos transformar e nos tornar capazes de chegar Àquele que é o Amor. Mas também para nós, as coisas não são tão diferentes de como eram para os Magos. Se nos fosse pedido o nosso parecer sobre a forma como Deus deveria ter salvo o mundo, talvez respondêssemos que devia manifestar todo o seu poder para conceder ao mundo um sistema econômico mais justo, no qual cada um pudesse dispor de tudo o que quer. Na realidade, esta seria uma espécie de violência sobre o homem, porque o privaria de elementos fundamentais que o caracterizam. Com efeito, não seriam interpelados a nossa liberdade, nem o nosso amor. O poder de Deus manifesta-se de modo totalmente diferente: em Belém, onde encontramos a aparente impotência do seu amor. E é ali que nós devemos ir, é lá que havemos de encontrar a estrela de Deus.

Assim, parece-nos bem claro também um último elemento importante da vicissitude dos Magos: a linguagem da criação permite-nos percorrer um bom trecho de caminho rumo a Deus, mas não nos concede a luz definitiva. No final, para os Magos era indispensável ouvir a voz das Sagradas Escrituras: unicamente elas podiam indicar-lhes o caminho. A Palavra de Deus é a verdadeira estrela que, na incerteza dos discursos humanos, nos oferece o imenso esplendor da verdade divina. Caros irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pela estrela, que é a Palavra de Deus; sigamo-la na nossa vida, caminhando com a Igreja, onde a Palavra armou a sua tenda. A nossa senda será sempre iluminada por uma luz que sinal algum nos pode oferecer. E também nós poderemos tornar-nos estrelas para os outros, reflexo daquela luz que Cristo fez resplandecer sobre nós. Amém.

 

 



Escrito por Dom Henrique às 01h55
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Stephen Hawking, Deus e deus

Caro Internauta, gostaria de colocá-lo diante de duas informações pescadas na Internet. Elas ajudarão a mantê-lo informado na questão da existência de Deus. Lá vão:

 

Primeiro, a informação como se encontra no verbete da Wikipédia sobre o físico e cosmólogo inglês, Stephen Hawking, no tocante a uma afirmação polêmica feita no seu último livro (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Stephen_Hawking):

“Hawking se descreve como agnóstico. Ele repetidamente tem usado a palavra "Deus" em seus livros e discursos, mas segundo ele próprio, no sentido metafórico e relativo. Sua ex-esposa Jane já afirmou que durante o processo de divórcio, ele se descreveu como ateu. Hawking declarou que não é religioso no sentido comum, e que acredita que "o universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido criadas por Deus, mas Deus não intervém para quebrar essas leis". Hawking comparou a ciência e a religião durante uma entrevista, dizendo "há uma diferença fundamental na religião, que se baseia na autoridade, e na ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona".

Em alguns trechos de seus livros, Hawking também parece seguir uma linha de pensamento baseado em Einstein ou em Leibniz, que se aproxima muito ao Deísmo. No livro "Uma breve história do tempo" ele cita que "tanto quanto o Universo teve um princípio, nós poderíamos supor que tenha um Criador". Ainda nesse livro, ele diz que "no entanto, se nós descobrirmos uma teoria completa...então nós conheceríamos a mente de Deus".

Porém, em seu mais recente e polêmico livro "The Grand Design", Hawking contradiz suas antigas declarações sobre a ideia de um criador[6] e sugere que "Deus não tem mais lugar nas teorias sobre criação do universo, devido a uma série de avanços no campo da física". No livro, numa declaração controversa, afirma que "Por haver uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar a ele mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, é a razão pela qual o universo existe, pela qual nós existimos", dizendo que o Big Bang foi simplesmente uma consequência da lei da gravidade. Hawking também cita a descoberta, feita em 1992, de um planeta que orbita uma estrela fora do Sistema Solar, como um marco contra a crença de Isaac Newton de que o universo não poderia ter surgido do caos”.

 


Stephen Hawking

 

Agora, dois comentários sobre a afirmação de Hawking, feitos por dois físicos católicos, pertencentes à Companhia de Jesus, os jesuítas. O texto apareceu em http://www.acidigital.com/noticia.php?id=19987:

 

“Dois físicos católicos descartaram que o novo livro do Stephen Hawking, "The Grand Design", chegue a descartar a existência de Deus como criador do universo, apesar de que o autor tenha lançado a audaz afirmação de que o universo "criou-se do nada".

O acadêmico jesuíta Robert Spitzer explicou que as afirmações de Hawking contra a existência de Deus e em favor da física refletem confusões fundamentais sobre o conceito cristão de Deus como criador de tudo o que existe, o que inclui o universo e as leis da física que se aplicam a ele.

Segundo o Padre Spitzer embora Hawking fale de um universo "criando-se a si mesmo do nada", pressupõe-se que este "nada" de alguma maneira envolve a gravidade e outras leis fundamentais da física.

Mas os princípios como a gravidade não são axiomas irredutíveis nem evidentes. Ao contrário, são as leis não físicas as que regem as operações ordinárias do mundo físico. Não há comparação entre uma criação que se desdobra e se desenvolve de acordo às leis da matéria, e a proposta de Hawking de "geração espontânea" da "nada", explica o sacerdote.

Para o perito, Hawking interpreta mal a verdadeira relação entre Deus e sua criação. "Hawking não explicou claramente por que existe algo em lugar de nada. Só afirmou que algo vem de algo", ao descrever o desenvolvimento de um universo que funciona na base de leis como a gravidade.

Historicamente, muitos teólogos cristãos, assim como filósofos não cristãos, argumentaram precisamente o contrário ao ponto de Hawking: as leis da física só podem ser atribuídas a um criador infinito, inteligente e não físico.

 


O Pe. Robert Spitzer

 

O jesuíta Guy Consolmagno, astrônomo do Observatório do Vaticano, explicou à agência Catholic News Agency, do grupo ACI, que as condições prévias do universo em desdobramento e suas operações não podem ser uma forma de "nada", como considera Hawking, mas condições criadas por Deus para o ordenamento do mundo.

"Deus é a razão pela qual o espaço e o tempo e as leis da natureza confluem nas forças de operação das que fala Stephen Hawking", assinalou.

Para Consolmagno, o desprezo de Hawking por Deus se apóia não só em sua denominação errônea das leis físicas como "nada", mas também em sua falta de compreensão da noção de transcendência de Deus. Assim, o que Hawking realmente descartou foi um tipo de "deus" no qual os cristãos não acreditam.

"O 'deus' no qual Stephen Hawking não acredita, é o mesmo no qual eu não acredito. Deus não é apenas outra força no universo, junto com a gravidade ou a eletricidade. Deus não é uma força a ser invocada para preencher os vazios de nosso conhecimento", acrescenta o perito.

Consolmagno recorda que "Deus é a razão pela qual a existência mesma existe".

Para o Padre Spitzer, Hawking admite este profundo mistério no mesmo momento em que trata de desprezá-lo.

"Em minha opinião, o Dr. Hawking ainda não demonstrou que esta realidade não seja necessária. Na realidade, ele o implica ao considerar a existência de um início em sua afirmação sobre o universo que provém do nada", conclui Spitzer”.

 

 
O Pe. Guy Consolmagno

 

Uma observação minha: o grande cientista inglês parece ter caído na armadilha em que tantos outros antes dele já caíram: partir de uma noção totalmente errônea de Deus para negar Deus! Exatamente o que Guy Consolmagno observou: “Deus não é apenas outra força no universo, junto com a gravidade ou a eletricidade. Deus não é uma força a ser invocada para preencher os vazios de nosso conhecimento”. Há um vício de raciocínio em todos aqueles que pensam poder provar a existência de Deus ou a sua inexistência por a+b a partir das leis deste mundo: uma noção totalmente equivocada da transcendência divina. Uma coisa é certíssima: a ciência e cientista algum, por brilhante que seja, jamais poderão provar que Deus existe ou que Deus não existe. Se o conseguissem provar, estariam falando de algo que não é Deus, mas apenas um conceito torto e redutivo do Deus verdadeiro. Talvez tenha sido isto que Stephen Hawking fez: afirmou ter provado que a hipótese da existência do seu deus, da sua concepção de Deus, é dispensável para explicar a existência do universo. Quanto ao Deus verdadeiro, o Santo, o Absolutamente Outro, o Eterno que está para além de tudo e no mais íntimo de tudo, não foi sequer arranhado pelo cientista inglês.


   
O Pe. Lemaître, pai da Teoria do Big-bang,
com Albert Einstein



Escrito por Dom Henrique às 01h02
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